Miguel Chaves

A tudo o que poderia ser dito de Mamadou Ba, lutador de enorme coragem e inteligência contra o racismo em Portugal, a quem todos devemos um papel essencial na desocultação da das formas de violência física e simbólica que se abatem sobre as populações racializadas portuguesas e imigrantes, impõe-se agora acrescentar o seguinte: Mamadou sempre revelou uma capacidade de encaixe, de resistência serena ao insulto e à difamação, absolutamente excecionais. Do outro lado, temos um cidadão associado a atrocidades cometidas e exaltadas, cuja imagem de marca, gravada em vídeo, consiste na simulação com um polegar de uma navalha decepando um pescoço – um cidadão cuja imagem de marca é a morte. O sistema jurídico nunca poderá cegamente culpar Mamadou por uma observação ou expressão irrisória, fazendo tábua rasa de todo o cenário de anos e anos de difamação e agressão a que foi submetido. Fazê-lo seria assumir, mais uma vez, o lado do “racismo da indiferença”, que tanto nos caracteriza enquanto sociedade, impondo uma mordaça a um lutador incansável pela democracia no seu amplo e verdadeiro sentido. O sistema jurídico português saberá que não pode contribuir para silenciar uma voz que além de incansável e lutadora é simultaneamente, sensível, lúcida e serena. Um exemplo.

Miguel Chaves
professor universitário