Luís Fazendeiro

Mamadou é de Portugal! O ódio e a intolerância não o podem ser.

Neste século de inquietações, entre pandemia, emergência climática e desigualdades crescentes, as forças obscurantistas procuram adaptar o seu discurso e – mais do que nunca – disfarçar os seus verdadeiros propósitos. Depois de tantas crises económicas, um pouco por todo o mundo, com destaque para a de 2008-09, a narrativa neoliberal tem cada vez menos hipóteses de ser levada a sério pela maioria da população. Assim, segue-se a cartilha já familiar, utilizada na campanha pelo Brexit no Reino Unido, nas eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro, de Narendra Modi, Netanyahu e tantos outros: apela-se ao ressentimento entre os mais desfavorecidos; procuram-se acicatar velhas feridas; glorifica-se um mítico passado nacionalista, varrendo a injustiça social, a escravatura, a espoliação de continentes inteiros para debaixo do tapete da História. E minam-se as redes sociais e a internet em busca de causas fraturantes, focos de discórdia. Amplificam-se falsos “debates”, utilizando uma miscelânea de perfis falsos e de informação distorcida, catapultando-os para os primeiros resultados dos motores de busca, geridos por algoritmos opacos e sem regulação pública. É assim que se muda de assunto e se evita falar nos reais problemas: alterações climáticas, desigualdades económicas gritantes, destruição ecológica, pobreza estrutural, militarismo exacerbado, desemprego, racismo, uma epidemia de solidão e doença mental.

Portugal dificilmente poderia ficar imune a este vírus – e eis-nos a braços com ele! Com alguns anos de atraso, mas em plena força… e com assento parlamentar.     

O ativista Mamadou Ba tem sido uma das vozes mais importantes na luta pela justiça social e no confronto contra o racismo sistémico. Muitas vezes desconfortável, porque os temas nunca são fáceis, mas por isso mesmo indispensável. É da mais elementar justiça que lhe seja atribuída uma condecoração do Estado Português pelo seu trabalho exemplar na defesa dos direitos humanos. Enquanto cidadão português tem exatamente os mesmos direitos que todas e todos os outros cidadãos, além do mérito e da coragem que muito poucos demonstraram. 

O que não pode ficar cá é o silêncio, nem a indiferença ao discurso de ódio e ao obscurantismo. O que não pode ficar são os interesses dos combustíveis fósseis, da indústria de armamento e segurança privada, da especulação financeira desregulada, que financiam campanhas partidárias e grupos nas redes sociais. Se não denunciarmos e combatermos hoje esta monstruosidade que cresce a olhos vistos, amanhã será tarde demais.

Mamadou é de Portugal! O ódio e a intolerância não o podem ser.

Luís Fazendeiro
investigador e ativista pela justiça climática