Lina Medeiros

Estou a chegar aos 60 anos.  

Estava no primeiro ciclo, lembro-me de ouvir uma amiga de minha mãe, que tinha um filho da minha idade, dizer-lhe, em conversa supostamente privada, que queria que o rapaz não crescesse. Não entendia e questionava-me por que alguém não queria que a ordem natural se estabelecesse. Anos depois, percebi que era o medo de deixar um jovem embarcar para um caminho que podia não ter volta.  

Não podemos negar a história.  Portugal, tal como muitos outros, foi um país colonialista, onde a guerra dizimou muitas vidas. Nesta contabilidade não cabe somente os mortos e os feridos oriundos do nosso país, mas todos os que tombaram. Foram muitos e Marcelino da Mata o responsável por um número bastante significativo. Homenagear semelhante personagem é não repensar o passado, é não assumir a necessidade de corrigir comportamentos é antes legitimar algo de que todos nós nos devíamos envergonhar.  

Fazer uma petição para deportar um português, que tal como muitos, repudiam o tributo a um criminoso, é a expressão pura de racismo, pois se assim não fosse a Mamadou Ba, teriam de se juntar outros que iriam para uma “terra”, que ironicamente é a em que vivemos, mas onde ainda temos direito à indignação e ao combate de quem quer fazer ressuscitar um passado de que não nos orgulhamos. 

Lina Medeiros
professora