Francisco Mouta Rúbio

Mamadou fica, porque já não pode sair.

Mamadou somos nós, que não calamos, que não glorificamos, que não esquecemos e que pensamos.

E agora, André?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, André?
você que zomba dos outros,
você que grita e vocifera?
e agora, André?

Está sem discurso,
está sem carinho,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o tacho não veio,
o riso não veio,
não veio a distopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, André?

Sua palavra de ira,
seu instante de febre,
sua gula,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para a Lusitânia,
Lusitânia não há mais.
André, e agora?

Adaptação livre do poema “José” criado pelo mestre Carlos Drummond de Andrade.

Francisco Mouta Rúbio
escritor desprofissional / trabalhador audiovisual