Alice Brito

Uma acanalhada petição obscena veio pedir a extradição de um cidadão português.

A incivilidade do pedido é proporcional à quantidade de ódio que nele se contém.

É uma petição escandalosa que surge no preciso contexto da denúncia de crimes de guerra cometidos por alguém que deles se gabava e que a democracia portuguesa quis glorificar.

A responsabilidade individual nos crimes de guerra é território indeciso e desculpabilizante.

Há sempre um encolher de ombros que naturaliza a chacina. A imediata invocação dos crimes cometidos pela outra parte desvaloriza e branqueia a morte de crianças, a selvajaria sádica do mal à solta, e, finalmente, uma guerra colonial anacrónica, sórdida e injusta.

No caso de Marcelino da Mata há relatos não só dos crimes em si que perpetrou, brutais e hediondos, como também do prazer em cometê-los.

Dizem que foi o mais medalhado militar do exército português. A cada medalha corresponde certamente uma matança com a respectiva destruição e tortura anexas. Contem-se-lhe as condecorações, as insígnias e os galardões e concluir-se-á por um dilacerante saldo final de infâmia. 

Fez mal o Presidente da República quando emprestou a sua presença ao funeral deste criminoso de guerra, ao lado de toda a extrema-direita de serviço.

Fez bem Mamadou Ba em denunciar tudo isto. Que nunca a voz lhe doa.  

Alice Brito
advogada
/ escritora