Paulo Raposo

A Mamadou Ba, toda a minha solidariedade.

Não terá sido fácil teres tido a coragem de te referires ao recém-falecido militar do exército português, Marcelino da Mata, como sanguinário criminoso de guerra ainda que este tenha efetivamente sido, direta ou indiretamente, responsável por massacres e mortes na guerra colonial portuguesa em África quando inexplicavelmente os mais altos representantes do Estado tomam presença nas suas cerimónias fúnebres. Que actos de bravura se quiseram ali homenagear? A chacina e o massacre de homens, mulheres e crianças africanas?  Onde estão os actos de homenagem e de reparação aos mortos, estropiados e a todas as vitimas dessa guerra colonial indefensável?  Não será fácil a tua vida futura neste teu país de acolhimento que vê agora um rumor fascista, colonialista e racista ameaçar-te uma vez mais e reclamar a tua expulsão ou propor legislação hedionda, nazi-nacionalista e justicialista para calar quem se manifesta contra o modo como se honram e homenageiam figuras e atos de bravura do antigo regime deposto a 25 de Abril de 1974. Mas muitos e muitas de nós sabemos distinguir as trevas da luz e condenar o ódio racista que habita quem te e nos insulta. E sobretudo sabemos que a longa noite sombria do Fascismo e do Colonialismo que este país viveu e ainda vive, mesmo que todos estes fantasmas guardados no armário do silêncio acrítico que o país manteve sobre o passado colonial venham agora à praça pública, sabemos e estamos seguros que essas fantasmagorias do passado e essas aparições do presente serão vencidas de uma vez por todas, com a nossa e a tua resistência.

Paulo Raposo
antropólogo, docente universitário, Diretor do CRIA-Iscte