Judite Fernandes

A VÉNIA. Micro conto. Inédito. 2021

Pegou a primeira ave pelo pescoço e torceu-o lentamente, à segunda cortou a cabeça com um exímio corte de faca, à terceira arrancou as penas uma a uma, e à quarta atirou para dentro de uma panela a ferver, enquanto mantinha a colher de pau sobre o lombo para que esta não tentasse fugir.
– Um herói. – Disse o senhor sentado na cadeira, que adorava ouvi-lo contar os detalhes da sanguinolência antes de adormecer. – A sua maior beleza foi não  ter-se limitado a cumprir as suas obrigações, mas o ter feito com a paixão dos verdadeiros amantes da morte.

Alguns anos depois, o senhor caiu da cadeira, sofrendo inúmeras lesões cerebrais. Deixou um rastro de admiradores e admiradoras, que ainda hoje levantam suas facas e chicotes sobre quem ousar discordar das palavras que o senhor espalhou como profissão de fé.
– Todas as escolas deviam ter à entrada um monumento aos criminosos de guerra, especialmente os nossos e, antes de entrar, todas as crianças deviam fazer uma vénia, para aprenderem desde cedo como e sobre o quê devem e podem falar.

Judite Canha Fernandes
escritora