Miguel Jorge

31.574 assinaturas para expulsar Mamadou Ba

Fico a pensar que estas trinta e uma mil quinhentas e setenta e quatro pessoas sabem o que é a Constituição da República Portuguesa. Não devem saber porque a Constituição no seu artigo 13 (Princípio de Igualdade), refere no ponto 1: Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

E que no ponto 2: Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito, em  razão da sua ascendência, sexo, raça (entenda-se etnia) ,língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

Ora Mamadu Ba não faz mais que lutar por aquilo que está consignado no artigo 13 da  Constituição Portuguesa ou seja defender as pessoas que sistematicamente são privadas dos seus direitos,  em  razão da sua ascendência, território de origem e da sua etnia… logo as pessoas que pretendem expulsar Mamadu Ba, incorrem, elas sim, no crime de não estarem a cumprir a Constituição, estando profundamente erradas naquilo que defendem, por ignorância ou puro racismo.

Miguel Jorge
professor

Alice Brito

Uma acanalhada petição obscena veio pedir a extradição de um cidadão português.

A incivilidade do pedido é proporcional à quantidade de ódio que nele se contém.

É uma petição escandalosa que surge no preciso contexto da denúncia de crimes de guerra cometidos por alguém que deles se gabava e que a democracia portuguesa quis glorificar.

A responsabilidade individual nos crimes de guerra é território indeciso e desculpabilizante.

Há sempre um encolher de ombros que naturaliza a chacina. A imediata invocação dos crimes cometidos pela outra parte desvaloriza e branqueia a morte de crianças, a selvajaria sádica do mal à solta, e, finalmente, uma guerra colonial anacrónica, sórdida e injusta.

No caso de Marcelino da Mata há relatos não só dos crimes em si que perpetrou, brutais e hediondos, como também do prazer em cometê-los.

Dizem que foi o mais medalhado militar do exército português. A cada medalha corresponde certamente uma matança com a respectiva destruição e tortura anexas. Contem-se-lhe as condecorações, as insígnias e os galardões e concluir-se-á por um dilacerante saldo final de infâmia. 

Fez mal o Presidente da República quando emprestou a sua presença ao funeral deste criminoso de guerra, ao lado de toda a extrema-direita de serviço.

Fez bem Mamadou Ba em denunciar tudo isto. Que nunca a voz lhe doa.  

Alice Brito
advogada
/ escritora