Joana Gomes Cardoso

Mamadou Ba tem sido uma das pessoas mais persistentes na defesa dos valores democráticos de Portugal. 

Ao longo de muitos anos, expôs e denunciou casos específicos de violência sobre minorias, o que lhe tem valido, a si e à sua família, ataques e ameaças que não são toleráveis num país.

O recente apelo à sua deportação é só mais um exemplo da campanha racista de que é alvo e da tentativa de intimidar e condicionar a luta anti-racista em Portugal.

Joana Gomes Cardoso,
gestora cultural

Jean-José Mesguen

Traduziu a letra de “Mamadou m’a dit” – François Béranger


Mamadou me disse
Mamadou me disse
Depois de espremerem o limão
Podem deitar a casca
Os limões são os pretos
Todos os pretos da África
Senegal Mauritania
Alta-Volta Togo Mali
Costa de Marfim e Guiné
Camarões e tutti quanti
Os colonos partiram ao som das fanfarras
Dos discursos solenes das benções
Cada povo claro que dispõe de si mesmo
E tem que prosperar na harmonia
Logo que acabou roubado sangrado
Despojado até que ficou nada
O mundo branco gargalha quando um sargentinho
Se coroa imperador com tanta vanglória
Isso não importa enquanto as terras
Produzem para os brancos o que for necessário
Algodão amendoim acúcar cacau
Enchem os navios atulham os armazéns
Os colonos partiram
Colocaram no seu lugar
Uma nova elite
De negros bem branqueados
O mundo branco gargalha
Os novos como é esquisito
São piores que os de antigamente
É com certeza um acaso
Afinal de contas está tudo bem
Os colonos partiram
A África que se desenrasque
Que os camponeses morram
Os colonos partiram
Levando nas bagagens
Uns barcos de escravos
Para não perder o jeito
Uns barcos de escravos para varrer as ruas
São todos iguais com aqueles gorros
Passam frio na pele e ainda mais no coração
Lá tem fome e aqui tem miséria
E pois é preciso as vezes comer e dormir
Em lares pocilgas se vive no sórdido
Os colonos partiram
Colocaram no seu lugar
Uma nova elite
De negros bem branqueados
O mundo branco gargalha
Os novos como é esquisito
São piores que os de antigamente
É com certeza um acaso
E um dia a Crise
Também nos invade
Temos que devolvê-los para sua casa
Ficarão mais felizes
Damos-lhes uma gorjeta
É preciso estar liberal
E se alguém resmungar
Um pontapé no rabo
Entendeu Senhor não é normal
Eles comem o nosso pão olham para as nossas mulheres
Que façam de macaco nos coqueiros deles
Os nossos pretinhos que cuidamos tão bem
E verdade que basta de um nada para diverti-los
Semprem riem-se não passam de crianças
Os colonos partiram
Colocaram no seu lugar
Uma nova elite
De negros bem branqueados
O mundo branco gargalha
Os novos como é esquisito
São piores que os de antigamente
É com certeza um acaso

Jean-José Mesguen
professor aposentado e tradutor

Délio Figueiredo

Conheço o Mamadou há muitos anos.

E sei que é uma pessoa íntegra, corajosa e que me representa – por mais que nunca tenha sido representante oficial (leia-se deputado).

Infelizmente, mais uma vez está a ser alvo de ataques racistas e fascistas. Algo que, lamentavelmente, já não é novo na vida dele. Algo que de uma forma triste e miserável se tem vindo a tornar demasiado recorrente e trivial neste nosso Portugal.

Eu não sou ninguém famoso, nem figura pública, nem outra coisa qualquer dessa dimensão mediática. Apenas eu próprio, amigo, companheiro, pai, como tantos outros. Também sou membro da Comissão de Trabalhadores (desde Janeiro de 2019) da empresa onde trabalho desde 2013 (BNP Paribas Securities Services – sucursal em Portugal). Nas outras vezes em que algo deste género aconteceu, enviei ao Mamadou uma mensagem de solidariedade no LinkedIn.

Desta vez, por favor incluam-me nos signatários.

Não me importo de dar a cara por ele, porque muitas outras vezes foi o Mamadou que deu a cara por mim – naquilo que defende intransigentemente.

Muito obrigado.

Délio Figueiredo
comissão de trabalhadores bnp paribas securities services