João Moreira

O Estado iliba André Ventura quando este, de forma difamatória e mentirosa, acusa Fernando Rosas de torturar e sequestrar mulheres em 1976. Quase simultaneamente o mesmo Estado, através do Ministério Público, leva a julgamento Mamadou Ba por este afirmar que o neonazi Mário Machado é «uma das figuras principais do assassinato de Alcindo Monteiro» – facto provado pelo Supremo Tribunal.

Estes dois factos revelam a posição do Estado português perante a evidente e cada vez mais perigosa ascensão da extrema-direita.

Estar ao lado de Mamadou Ba é, portanto, uma obrigação de todos os democratas que não se curvam perante um Estado que se mostra complacente (ou conivente?) com as principais figuras do neonazismo e da extrema-direita.

Estar do lado de Mamadou Ba é estar do lado da liberdade, da igualdade, da fraternidade, dos direitos humanos.

João Moreira
investigador

Mário Martins

Estou há diversos dias a olhar para o site e a pensar que talvez fosse boa ideia mandar uma palavra, mesmo que por mais modesta, de solidariedade para com o Mamadou Ba. Demorei, mas depois percebi, ao refletir numa frase mítica e amplamente conhecida de Martin Luther King, que o nosso silêncio só beneficia quem da história quer se aproveitar para resgatar algo ultrapassado, mas ainda (violentamente) muito presente.

Vivendo fora do país, noutro onde ainda há pouco menos de meio ano a extrema-direita ultrapassou todos os resultados que até então tinha alcançado, todas as vozes que se insurgem contra o racismo, a xenofobia e a extrema-direita são importantíssimas e devem ter toda a solidariedade de quem nestas lutas participam, mas também da sociedade civil. Encarar este problema como uma mera circunstância ou uma simples fase temporal foi precisamente o erro cometido que originou a que, mais de 40 anos, um partido claramente fascista tivesse a representação mediática e parlamentar, para não falar do resto, que tem.   Ao Mamadou, e a tantos outros e tantas outras, a minha total e incondicional solidariedade. Porque quem está de facto no banco dos réus não é só ele. É a democracia, a inclusão e a dignidade. E que 48 anos depois da Revolução de Abril se dê cumprimento integral do programa do MFA e a descolonização seja, por fim, praticada nas mentes da sociedade portuguesa. 

Mário Martins
trabalhador em logística

Ana Catarino

Quando recebi a notícia que o Mamadou estava a ser acusado pelo Ministério Público por difamação por ter dito o óbvio sobre um sujeito que é, efectivamente, racista, fiquei perplexa. Ainda pensei que se pudesse tratar de um qualquer equívoco. Infelizmente, parece que não.

Então, como nesta questão não há ficar em cima do muro, é bom afirmar-mos alto e bom som que o Mamadou  representou-nos a todos quando disse as palavras que agora o levarão a tribunal. É bom percebermos que todos nós estaremos sentados ali e que a solidariedade com o Mamadou é um imperativo ético se queremos construir um país, realmente, democrático. Se queremos abandonar esta postura sonsa em que, para não tomar posição, se assume um suposto equilíbrio entre margens que não se equivalem. Racismo e anti-racismo não são extremos que se tocam. Não extremos que se excluem. Esta é a altura de percebermos de que lado estamos nesta luta.

Toda a solidariedade com o Mamadou Ba!

Ana Catarino
antropóloga

Paulo Caetano

Há um cancro entre nós. Uma mancha maligna que consome e contagia o que a rodeia. Um mal que se alimenta de violência sobre os mais fracos e de ódio sobre quem é diferente. Escumalha como Mário Machado e outros nazis que, há várias dezenas de anos, espalham terror quase impunemente, perante a indiferença – quando não a cumplicidade – de poderes públicos e órgãos de comunicação.

Está na hora de estripar definitivamente este Mal. Fazer-lhe frente. Mostrar publicamente quão cobardes são estas matilhas sedentas de sangue. Está na hora de enfrentá-los. E é isso que Mamadou Ba tem feito. Com coragem, sem hesitações, não cedendo às pressões e às ameaças. Perante este cancro que nos pretende intimidar como sociedade livre, como comunidade que tem de ser inclusiva e democrática, Mamadou Ba é o estilete que, a cada intervenção, rasga mais um pouco deste cancro.

Paulo Caetano
autor

Rita Taborda Duarte

O fascista, antes de botas cardadas, agora e fato e bravata, alega que quer desinfetar o nome. Mas que nome? Ser fascista é ser-se inominável; é nem ter nome que se diga; e, ainda que o tivesse, estaria tão enodado, imundo, embostelado… não haveria modo de o desencardir.

O racista lembrou-se agora de que precisava limpar a honra, mas todos os lenços com que se esfrega estão emporcalhados…manchados de sangue.

O criminoso racista, fascista, quer continuar a fazer o que sempre fez: intimidar, ameaçar, silenciar, coagir, mas esquece-se de que ontem, como hoje – sempre– não há – nunca haverá – «machado que corte a raiz ao Pensamento»

Solidariedade com Mamadou!

Rita Taborda Duarte
professora e escritora

Hernâni Carmo

Não nos deixamos confundir. O ódio e a violência são os verdadeiros inimigos da democracia. Aqueles que, como o Mamadou, dão a cara pelo movimento antirracista são a cura para uma sociedade desigual e discriminatória.

A voz do antídoto nunca pode ser colocada no banco dos réus, enquanto a doença se espalha com a maior das levezas.

Não podemos tolerar a normalização da extrema-direita pelas instituições. 

Pelo Mamadou, pela democracia! 

Hernâni Carmo
economista

Francesco Biagi

Dado que Mamadou Ba vai a julgamento perante um tribunal, é necessário dizer com força que somos todos e todas Mamadou Ba e que, como ele, também pensamos que Mário Machado é um nazi responsável pela morte de Alcindo Monteiro, rapaz que morreu em Lisboa, em 1995, por elementos do grupo de ‘skinheads’ de extrema-direita do qual o Machado fez parte. Claramente, pouco nos preocupamos com a verdade judicial que absolveu Machado, porque a questão é política e nenhum tribunal pode apagar certas responsabilidades. Se um juiz leva Mamadou a julgamento por estes motivos, então esse juiz deve levar todos e todas nós, militantes antirracistas, perante esse tribunal. Ao juiz Carlos Alexandre, do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), queria dizer que pode tranquilamente ampliar a decisão instrutória com o meu nome e muitos mais nomes e apelidos. Fico à espera, se esta é a democracia em Portugal o juiz tem que levar muitas mais pessoas! Todos e todas queremos ser julgados por esse tribunal, porque também pensamos como Mamadou! O antirracismo não se julga em frente ao tribunal, aliás se tem que ser julgado: aqui estamos! 

Em segundo lugar, queria acrescentar que é muito perigosa esta decisão do tribunal: numa fase política onde em toda a Europa a direita ganha consenso (a Itália é um exemplo claro) escolher de levar para o tribunal uma pessoa como o Mamadou significa legitimar o papel político da extrema-direita. Enfim, mais uma vez, as instituições liberais abrem a porta à extrema-direita, sem perceber a importância pública dos atos dos tribunais. Com Mamadou Ba, contra esta campanha de assédio judicial! 

Francesco Biagi
investigador em sociologia urbana e militante da Stop Despejos, Habita e do espaço Sirigaita