Vera Palos

A luta contra o racismo será sempre em carne e osso.

Não quero viver num país que se assume “não-racista, não homo/bi/transfóbico, não-machista” enquanto deixa as discussões e o pensamento de parte. Precisamos de assumir as culpas dos erros do passado colonial e discuti-las de forma a direcionar as forças para o presente e futuro. Não nos propomos a apagar a história, mas sim a contextualizá-la!

Continuaremos a meter o dedo na ferida enquanto se escreva nas lápides: machismo, racismo, homo/bi/transfobia. Continuaremos a meter o dedo na ferida enquanto nos quiserem proibir de ser quem somos, de tomarmos o espaço público ou de exigir a palavra em prol dos direitos das pessoas.  Que este seja um espaço de reflexão e de dar voz a quem a não tenha.

O Mamadou ensina-nos a não ter medo e não está sozinho!

Audre Lorde escreveu que usaria a sua raiva como fonte de energia para a luta interseccional, pois bem, que isto nos sirva de mote para quem acha que se justifica deportar ou matar tendo como base cor da pele, orientação sexual, género ou credo.

Também Audre nos ensinou que não seremos livres enquanto as nossas irmãs/irmãos não sejam livres, ainda que os grilhões sejam diferentes.

Vera Palos
tradutora

Pedro Miguel Santos

Na aldeia onde cresci, a pouco mais de hora e meia de Lisboa, as caras brancas são a maioria. As mentes também. Foi preciso sair do ninho para perceber como o racismo e a discriminação estavam entranhados na minha construção. Desde garoto, na televisão, ouvia histórias sobre os bairros problemáticos da capital e as imagens mostravam quase sempre pessoas negras ou ciganas. O tom, as palavras, tudo era símbolo de violência e caos. Amadora, Cova da Moura, Sintra, significavam perigo.
Felizmente, não tínhamos disso na nossa pacata terra. As conversas sobre “pretos e ciganos”, eles e nós, pareciam não se aplicar a “pretos e ciganos” de lá. Ao lado das figueiras com os melhores figos do sítio, mesmo atrás de casa, morava a “Mingas”, corajosa mãe de quatro. Brinquei com a Abna e a “Lili”, mais da minha idade. O “Neco” e o “Pato”, um pouco mais velhos, tinham-no feito com as minhas irmãs. Na minha rua, um pouco mais à frente, vivia o “Teco” – talvez o mais alegre e sedutor miúdo da terra – e o “Dimas”, já matulão, o craque da bola que admirávamos. A Jandira e o Sandro eram mais gaiatos, mas também andámos juntos na escola. Moravam n’ “O Bairro”. Toda a gente gostava deles. Porquê? Porque, dizia-se, não eram “pretos como os outros”.
A aldeia, por ser um lugar às portas da vila, é, na prática, o subúrbio da sede do concelho. E aqui fica “O Bairro” ou “Texas”, o Bairro do Carrascal, construído provisoriamente para albergar população vinda das ex-colónias. Casas de madeira, pequenas, coladas umas às outras, em fila. Ainda hoje. Transformou-se em bairro social oficioso, onde moravam pessoas pobres, ciganas, negras e retornadas. Morava lá também o Marinho e a família. A mãe e o pai vendiam na feira. Ele e as irmãs estudavam connosco – elas, até terem deixado de lá ir, demasiado novas. Ele continuou, chegou ao terceiro ciclo. Era o melhor amigo do meu irmão. Toda a gente gostava deles. Porquê? Porque, dizia-se, não eram “ciganos como os outros”.
Portanto, tínhamos “os nossos pretos”, tínhamos “os nossos ciganos” e eles eram diferentes porque cresceram ao nosso lado, andaram connosco na escola e no futebol. “Eram como nós”. Não eram como os das notícias: “criminosos”, “a querer roubar”, “a viver à custa dos subsídios”. Este argumento continua a ser utilizado por alguns amigos meus, nos dias de hoje. Acreditam que a colonização portuguesa foi a menos má, como acreditam que vai sempre haver racismo, que já não há discriminação contra as mulheres ou as pessoas LBGTQI+ – há é minorias que “não se querem integrar”.

Muitos são pais, estão a educar seres vivos, e acreditam nesta ideia do “nós” e do “eles”. Muitos não gostam do Mamadou e desconfio que não se importavam que fosse expulso do país. Seria o mesmo que mandar embora da nossa aldeia a Abna, a “Lili”, o “Neco”, o “Pato”, o “Teco”, o “Dimas”, a Jandira, o Sandro e o Marinho. Não sei se o percebem.
O Mamadou entra aqui. É a forma como questiona e faz pensar o quão profundo é o racismo estrutural em que vivemos; como entende a luta e a defesa da democracia; como argumenta sobre o passado e o tanto que falta fazer no futuro que me permite pensar e pensar-me. Que me permite discutir com amigos sobre as ideias feitas com que nos moldaram e se cristalizaram em nós. 

O Mamadou fala, sem medo e de cabeça erguida. O que diz fica. Ecoa. Como ele, no presente, na história e na memória da luta antirracista deste país. Ficará sempre. Gostava de ter a sua coragem, inteligência, estatura e resiliência. Mas não me falta admiração. Ele não sabe disto, porque nunca lho disse. Casei-me em 2019, com outro homem. Um direito ganho a custo, pelo qual ele também lutou. No meu casamento, as mesas tinham nomes de pessoas inspiradoras, gente que faz o mundo avançar: de Malcom X a Amílcar Cabral, de Marsha P. Johnson a Claudette Colvin. Naquela onde se sentaram alguns amigos da aldeia que negam o racismo, lia-se: “Mamadou Ba. Ativista e militante antirracista. Defensor dos Direitos Humanos de imigrantes e minorias étnicas.”

Pedro Miguel Santos
jornalista

Maria José Campos

Mamadou Ba levantou o tapete e agitou a poeira acumulada durante anos e anos de negação da existência de racismo na sociedade portuguesa.

A negação da doença, seja ela o racismo, o machismo, a homo/transfobia perpetua a discriminação e a desigualdade no acesso à educação, aos cuidados de saúde e à justiça e impede o tratamento e a sua erradicação.

A liberdade de expressão é um valor fundamental para uma sociedade saudável e justa do século XXI.

Maria José Campos
médica

João Camargo

A direita e a extrema-direita estão sempre do lado dos mais fortes e contra os mais fracos. Sempre. Por isso eles têm de odiar o Mamadou e a luta anti-racista. Porque o Mamadou está sempre do lado dos mais fracos e contra todas as ferramentas usadas para oprimi-los. Por isso usam e reforçam o racismo estrutural como ferramenta de dominação e subjugação. Por isso eles têm de odiar o Mamadou, porque ele sempre trabalhou e continua a trabalhar para destruir essas ferramentas.

Demonstrar a nossa solidariedade para com o Mamadou e com a luta anti-racista não acontece por esta ser fraca ou estar enfraquecida. Ela e ele estão numa luta quente e numa disputa histórica que tem neste momento mais um pico. Tem-no porque as contradições no mundo estão hoje também em mais um pico, talvez o maior de sempre. Demonstramos a nossa solidariedade ao Mamadou para que saibam quão forte é o seu lado, o nosso lado. O Mamadou não está e nunca esteve só. Estamos e estaremos com ele. Não há justiça social, não há justiça climática, sem justiça histórica e justiça racial.

João Camargo
investigador / ativista do Climáximo

Carlos Pratas

O racismo e a xenofobia são pontos nevrálgicos onde se centra o discurso neonazi. Mamadou Ba é a voz que tem sobressaído no combate ao racismo, a voz que tem falado por muitos de nós. Manifestar a solidariedade com Mamadou Ba é manifestar o compromisso com a luta anti-racista.
Mamadou Ba fica e não só pela circunstância de ser português. Se não fosse, ficava na mesma.
Um pedido de deportação é um acto xenófobo, uma manifestação de ódio ao que é diferente que medra na cultura do patriotismo, alfobre de todas as guerras, a que alguém já chamou o último refúgio dos canalhas.

Carlos Pratas
reformado

Luísa Acabado

Se o Mamadou Ba fosse, quem ficaria? Se se podem expulsar pessoas, quem são as pessoas que têm “direito” a ficar?

A petição para a expulsão do Mamadou Ba não é sequer discutível.

Não por ele ser português, mas porque temos nas mãos a construção de um país plural, de liberdade e direitos, em igualdade e democracia. Um país que consiga quebrar os mitos do passado e do presente. Do quinto império à lusofonia. Da escravocracia ao empreendedorismo.

As campanhas de que tem sido alvo Mamadou Ba, do insulto racista, às ameaças várias e à recente petição de expulsão são preocupantes. São sintomas mais do que diagnosticados. Sabemos bem que não os podemos deixar passar. Sabemos bem que se não cerrarmos fileiras cairão todas as vozes livres. Saibamos também que não basta sermos de carne e osso.

Ficamos com Mamadu. Fiquemos com todas as pessoas que fazem os seus dias na luta por um futuro mais justo e solidário.

Luísa Acabado
jurista 

António Subtil

O que Mamadou Ba diz incomoda? Acredito que sim e, ainda bem. Num país como Portugal, com uma cultura profundamente racista enraizada, uma das características mais agressivas e insidiosas deste sistema hediondo de racismo estrutural é a negação do racismo, com o propósito de invisibilizar o outro negando-lhe a existência. 

Mamadou Ba fica, como qualquer outro cidadão português. Muito obrigado Mamadou Ba, por tudo o que tens feito no combate à invisibilidade dos corpos que os grupos que historicamente sempre têm detido o privilégio teimam em manter. 

António Subtil 
psicólogo 

André Leal

Até muito tarde na minha militância política considerava o combate ao racismo como algo de cariz meramente humanitário e desagregado dum pensamento político mais profundo que questionasse o sistema capitalista que nos oprime. 

Depois, na minha militância, fui confrontado com o meu privilégio de homem branco, cis, hetero e de classe média e percebi que a opressão desse sistema não se manifesta de forma igual sobre as várias divisões socialmente construídas na nossa sociedade e que estas para mais não servem do que para mais facilmente manter a classe trabalhadora amorfa, desunida e, por isso, mais inoperante nas suas lutas. Lembro-me e lembrar-me-ei sempre perfeitamente do dia em que o Etiandro Costa clamou do púlpito da festa do partido da minha militância na altura (MAS) que “Portugal é um país racista”. Uma intervenção que ainda hoje tem impacto em mim.
Hoje não tenho qualquer dúvida que o Mamadou Ba e outr@s ativistas negr@s no nosso país estão a fazer um trabalho inestimável em prol de toda a classe trabalhadora e que, ao contrário de a desunir, como querem fazer crer, estão a trazer para a luta pessoas que não viam motivos para lutar. Agora essas pessoas vêem a sua condição específica e suas formas de opressão serem mencionadas e discutidas por toda a sociedade, muito embora seja ensurdecedor o ruído dos soundbytes , lançados de forma descontextualizada por aqueles que querem que nada mude.

E foi por causa destes ativistas que percebi que o pensamento que tinha e que referi no primeiro parágrafo não só estava errado, como é exatamente o inverso: a luta antirracista é essencial no combate ao capitalismo!

Por isso digo Mamadou Fica! E por isso lutarei com todas as minhas forças!

André Leal
ativista

José Guerra

Mamadou Ba é um dos protagonistas da luta essencial por um país mais livre, mais justo e que consiga ultrapassar finalmente o seu passado colonial. O 25 de abril de 1974 começou em África, não tenho dúvidas disso. Devemos aos movimentos de libertação africanos e aos seus combatentes as condições para a queda do regime do Estado Novo, o impulso decisivo à vontade dos capitães que libertaram as forças que fizeram de Portugal um país sem mordaças. Há agora quem queira voltar a amordaçar, calando o Mamadou Ba e todas as pessoas que, como ele, lutam incansavelmente para que esta terra seja de quem aqui vive, sem discriminações de qualquer tipo. Estou solidário com o Mamadou, companheiro de luta, internacionalista convicto e voz do combate antirracista que representa com enorme dignidade.

José António Guerra
reformado / deputado municipal em Sesimbra