Sofia Conde

Porque as cores são para os cegos,

As religiões para os surdos,

E o racismo para os mudos.

Coração, pulmão, fígado, osso e sangue,

Melanina não é opção, é proteção!

Porquê este impulso de expulsar e maltratar quem é diferente?

Vem da história ou das estórias?

Mas vem da própria cabeça de quem o pratica? Ou serão todos meros “macacos” de imitação? Não fosse esta a personificação feita por quem insulta e tanto empurra…

“A tua terra” é a “nossa terra”,

As fronteiras são mais uma criação.

Oh verão… tão esperado e vaidoso bronze que trazes….vens aproximar as cores…ou é mais um mero clichê dos “superiores”?

Ora pensem como Humanos e não como pedras pontiagudas! Usem a própria cabeça e a razão.

Porque TODOS SOMOS IGUAIS e a cegueira não tem direito a expulsar ninguém.

Sofia Conde
engenheira agrónoma

Cristiana Vale Pires

Reconheço o sangue do opressor que me corre nas veias e o privilégio que se me cola à pele. Não é possível não o saber, a não ser que seja intelectualmente desonesta e insista em mentir e fantasiar sobre a história presente e passada (e as histórias para além da “História”). Fui socializada pelo orgulho nacionalista e supremacista branco e afirmo-me uma racista em desconstrução. As várias tentativas de silenciamento e de reafirmação da legitimidade do projeto colonialista português envergonham-me e enchem-me de culpa. Mas isto não é sobre mim, é sobre ti. Por isso agora calo-me, oiço-te atentamente e aprendo contigo.

Obrigada Mamadou Ba! Fica, fica, fica!

Cristiana Vale Pires
investigadora

Merai

Mamadou: Livre

Deixem os nossos soldados combater! Não são soldados da violência

São soldados da paciência Que empunham palavras

E medem a tolerância como um escudo leve Que permite insultos e injúrias

no “país” “livre” que somos.

Ofende a alguns que soldados combatam Uma luta que querem crer não existir.

Querem silenciar-nos?

Devemos ser um coro dissimulado Então porque vos incomoda?

Porque contraria a vossa crença?

Lamentamos rebentar a vossa bolha confortável O sofá, a televisão, a comida pré-fabricada,

A mindfulness, as meia do natal, a performance parada

Mas a vida não pára

Não pedimos que se importem Pedimos que ajam!

Há quem viva onde o oxigénio pulsa E os tecidos não estancam o sangue

Há quem dance por cima disso também Ninguém é miserável

Somos histórias que se contam a si mesmas Com um brilho nos olhos

Histórias que merecem ser ouvidas e contadas Tidas em conta pelo Homem

Não nos arranquem páginas Há sempre espaço

E podemos dar o primeiro passo

Todos os dias guardam a semente da oportunidade

Perguntemos:

Que mundo é este em que a palavra encarcera?

Que mundo é este que protege mais os cadáveres que os vivos?

Que mundo é este que vê os seus filhos a arrecadar pedras nos bolsos por uma destruição precoce?

Que mundo é este e em que se está a tornar? Deve ser um mundo que se detesta

Mas nunca é tarde

Merai
estudante

Ricardo Cabral Fernandes

Mamadou Ba fica. A petição para deportar Mamadou Ba é intolerável e mais um exemplo do racismo estrutural em Portugal. Foi mais um ataque à democracia. Foi mais um ataque racista entre tantos que Mamadou Ba vem sendo alvo há vários anos. Mas Mamadou Ba não se cala e faz frente sem quartel a quem quer perpetuar o racismo no país e no mundo. E essa coragem é cada vez mais necessária. 
Mamadou não pode ficar sozinho. Nem vai ficar sozinho. Mamadou Ba fica. Toda a solidariedade.

Ricardo Cabral Fernandes
jornalista

Rafael Ayres

Mamadou Ba fica e com ele ficam os direitos humanos, 
Fica a resistência contra quem cultiva medo.

Contigo e com quem precisar estou aqui para que o futuro seja diferente,

Quero menos ódio e mais equidade.
Mudemos as bandeiras nacionalistas para bandeiras de fraternidade e solidariedade.
Juntos na luta anti-racista construímos sem ninguém ficar para trás.

Rafael Ayres / Van Ayres
performer

Paulo Vitorino Fontes

Manifesto a minha solidariedade, em carne e osso, com Mamadou BA e com aqueles e aquelas que sofrem e lutam contra o racismo. Essa ideia de que existe um tipo de pertença entre um território e uma pessoa ou um grupo de pessoas, um povo, uma nação ou um sangue é muito perigosa e já causou pelo menos duas guerras mundiais e vários genocídios. Ninguém escolhe onde nascer, mas escolhendo onde quer viver, é aí que deve pertencer. Como Hannah Arendt disse e lutou, o direito a ter direitos começa com o direito a ter um lugar no mundo, o primeiro direito fundamental.

Se olharmos à história das migrações, comprovada pela ciência da genética, somos todos e todas da mesma raça, e também já fomos migrantes, saímos todos de África. Nesse sentido, todas e todos nós somos ou já fomos negros ou pretos, pelo que racionalmente não faz qualquer sentido o racismo. A cor de pele é apenas uma adaptação da espécie a climas mais quentes.
No entanto, o racismo continua a existir na nossa sociedade, muitas vezes disfarçado e raras vezes assumido. Temos que desconstruir o racismo e a xenofobia, começando em nós próprios e não baixar armas na luta contra o fascismo disfarçado de populismo.
A luta continua!


Paulo Vitorino Fontes
sociólogo

Paulo Coimbra

A permanência de Mamadou Ba no país, no seu país, não está, nem nunca esteve em causa. É muito bom ver tanta gente, com tanta qualidade, a dizê-lo. Mas é preocupante que seja necessário fazê-lo. Vivemos tempos estranhos. Os que controlam o bolo voltam a conseguir cavar trincheiras entre os que disputam as migalhas. São tempos de luta, por isso. Racistas e exploradores de todo o mundo, ide-vos foder.  Eu sou Mamadou Ba.

Paulo Coimbra
economista

Jovita Pinto

Mamadou Ba fica.

Como cidadã suíça, cuja Negritude a coloca fora e para além do projeto-nação,

Como viajante pela Europa, cuja presença é continuamente policiada, contestada e questionada,

Como ativista que afirma que vidas Negras importam,

Como pensadora que procura centralizar corpos racializados ilegalizados, encarcerados, deportados e trans* para a nossa liberdade vir a ser,

Como pessoa queer, que sabe – embora impossível imaginar para muitos – existimos,

Como feminista, que sabe que nem a dependência, nem o cuidado têm género,

Como humana limitada aprendendo continuamente a escutar e a ouvir, onde se encontram as feridas e os sofrimentos dos outros,

Como pessoa de esquerda engajada localmente e pensando planetariamente,

Como anarquista, que vê a liderança do nosso presente comum na vida errante das raparigas Negras*,

Como historiadora, à procura de um imaginário em que a colonialidade tornou-se “pós”,

Como radical que acredita no amor,

Mamadou Ba tornou-se companheiro.

Mamadou Ba tornou-se orient-ação.

Mamadou Ba tornou-se consciência.

Mamadou Ba é continuidade.

Mamadou Ba fica.

E nós ficamos contigo.

Que mais?

Jovita Pinto
historiadora e ativista