Rosa Paula Rocha Pinto

No dia 10 de Junho de 1995, Alcindo Monteiro foi espancado até à morte por um grupo de neo-nazis que tinham aproveitado o feriado para festejar o seu “Dia da Raça”. Nessa noite outros jovens negros foram violentamente espancados. Tinha eu vinte anos e lembro-me de sentir um misto de medo, raiva e vergonha.

Mário Machado, então militar no activo, era um dos agressores do grupo de skinheads. Acabaria condenado a pena de prisão pelo papel que teve naquela noite na onda de agressões que varreu o Bairro Alto. Depois disso voltou a ser condenado por sequestro, roubo, posse ilegal de armas, incitamento à violência, etc., numa sequência de processos que o condenaram uma e outra e outra vez. Com o tempo, tornou-se uma figura mediática que soube dar a cara pelas mais inomináveis ideologias.

Foi com indignação, e, novamente, raiva e vergonha, que soube que o Ministério Público, que nos deveria representar, decidiu ceder tempo e dinheiro de todos, e dar ainda mais espaço mediático a um criminoso condenado e que nunca se arrependeu, ao levar Mamadou Ba a ser julgado por supostamente difamar… Mário Machado.

Estou solidária com Mamadou Ba a quem agradeço a perseverança e a coragem de não deixar cair em esquecimento nem o Alcindo Monteiro nem tantos outras vítimas de ódio racial e injustiça social.

Aproveitemos o momento para escrutinar a nossa justiça e denunciar este absurdo.

Rosa Paula Rocha Pinto
Musicóloga e professora do ensino artístico