Fernando Emmes

… há muitas décadas que a Direita, a mais reaccionária Direita, anda a tentar fazer esquecer tudo aquilo obrigou a Humanidade a sofrer ao longo da primeira metade do século XXI.

Em menos de um século, conseguiram apagar da mente colectiva os milhões de mortos que carregam às costas, a miséria que impuseram sobre as populações e comunidades, as violações feitas à Liberdade que tanto nos custou ganhar e tanto nos custa manter. Fizeram esquecer a sua mais negra e pérfida cara.

Cultivaram de tal modo o esquecimento que temos hoje o Fascismo no nosso Parlamento, espalhado por todos os países europeus e mais assustador, está mesmo entre todos nós. Nos locais de trabalho, nas conversas de café, por todo o lado e como se nunca nada tivesse acontecido. Como se não tivéssemos aprendido nada. 

Temos que reconhecer que fizeram um bom trabalho. Temos também que reconhecer que não o fizeram sozinhos, que tiveram aqui e ali, ajuda. Importantes ajudas, fossem elas conscientes ou inconscientes. Mas tiveram ajuda. 

Dizer-me que não posso ter memória é uma violação dos meus direitos mais fundamentais. Dizer-me que não posso recordar aquilo que fizeram é mais do que um atentado aos meus Direitos, mas um atentado aos Direitos e Liberdades de todos Se alguém, mesmo que ilibado em sede própria, é responsável pla morte de outro, não por acção directa mas se furtar deliberada e conscientemente à prestação de auxílio, for lembrado como parte de um acto que culminou na morte de outro, não é crime. É sim um exercício de memória. Um exercício que não pode, bem de todos, a bem da verdade, a bem e respeito dos Direitos já conquistados, não pode ser reprimido ou argumento de condenação de alguém. Alegam contra o meu camarada Ba, que a espada de Demóstenes não deve estar ad eternum sobre a cabeça de quem foi ilibado pela Justiça, embora esta admita a sua presença no local. No local onde foi cometido um crime, no local onde o ilibado não prestou o auxílio a que a própria Lei obriga. Não. Não, ninguém deve ter a espada de Demóstenes eternamente sobre a sua cabeça. Mas ninguém pode, deve ou ser obrigado a esquecer o que aconteceu. A esquecer o passado. A esquecer que há quem aqui não esteja para chamar os bois pelos nomes. 

Se a espada de Demóstenes não pode estar sobre a cabeça de um cidadão que faz, ainda hoje, da sua acção pública a subversão do sistema, da Democracia, da própria Justiça, é bom nunca nos esquecermos que uma outra espada foi usada sobre Alcindo Monteiro terminando com a sua Vida.

Ele, o Alcindo, não está entre nós. 

Ele, o Alcindo, não usa, abusa, manipula e serve-se da Lei e de um Estado de Direito para esconder, escamotear e tentar apagar da memória colectiva quem realmente é, o que fez, faz e são os seus objectivos e propósitos. 

Perceber que um magistrado pode, no cumprimento do exercício das suas funções, ser a tal ajuda de que falava no início, é algo absolutamente aterrador.

Sentar o activismo no banco dos réus é dar essa ajuda às tentativas de esquecimento. 

E eu pessoalmente, recuso esquecer. Não esqueço. E não esqueço principalmente a divulgação do braço esticado, da tomada de assalto de um partido político evitando o disposto constitucional quanto à ilegalidade de organizações fascistas, dos inúmeros episódios protagonizados contra outros cidadãos, contra a Justiça, contra a Democracia. 

Nada do que aqui estou a mencionar é do foro privado de alguém. Tudo isto é público. E tudo isto me querem obrigar a esquecer. Querem fazer da afirmação de uma verdade, melhor, querem fazer da Verdade algo proibido e alvo de sanção judicial. 

Fazer com que não consigam esse objectivo está nas mãos de todos nós. Está principalmente nas mãos daqueles que devem perceber que estão a ser manipulados, instrumentalizados no processo de ocultação da nossa memória colectiva dos actos daqueles que recorrem à Justiça mesmo sem a respeitar ou reconhecer legitimidade.

Fernando Emmes
jornalista