Ana Natividade

Na noite de 10 de junho de 1995 eu estava em Lisboa, no Bairro Alto. Mamadou Ba não vivia ainda em Portugal e imagino que estivesse muito longe, em Dakar. Estava, apesar de tudo, muito mais presente do que eu. 

Não sou racista. não compreendo o racismo. Não compreendo as causas, o ódio da sua motivação, mas, porque sou branca, sei que não posso compreender plenamente os seus efeitos, as suas consequências. Não sou obrigada a sofrer quotidianamente o racismo no meu corpo e na minha vida, nas suas formas mais violentas, mas também nas suas formas menos visíveis, mais constantes e insidiosas.

Contudo o racismo não afecta apenas as suas vítimas directas.

Porque desumaniza, o racismo diminui-nos a todos. Em primeiro lugar a quem dele é vitima, mas também a quem o inflige, a quem assiste e a quem luta contra ele. 

O ódio corrói-nos, o medo paralisa-nos, a humilhação apouca-nos, o racismo faz isto tudo.

Sou solidária com Mamadou Ba pela forma corajosa e constante como tem dedicado a sua vida a trabalhar por uma sociedade verdadeiramente melhor para todos.

 Mamadou Ba não se cala, não tem medo, está onde é preciso. Tem todo o meu respeito e a minha admiração.

Ana Natividade
artista visual