Marcela Uchôa

O conceito de judicialização da política, que implica, reciprocamente, uma politização da justiça, não é um fenómeno novo, mas quando aplicada ao contexto de países semi-periféricos permeados por contradições e sem nenhuma consciência de classe como Portugal, a violência e arbitrariedade é ainda mais alarmante. O racismo que atua como motor no emprego de métodos oriundos da análise crítica do discurso demonstra que o libelo acusatório faz uso sistemático de estratégias retóricas de persuasão, próprias do campo político.

Quando a justiça penaliza quem denuncia o abuso, a violência, a barbárie, essa Justiça é burguesa, e nessa afirmação estão contidas todas as prerrogativas que já denunciavam Marx e Engels ainda em 1848 no Manifesto Comunista que parafraseio, aqui: ‘A Burguesia Converteu o Jurista em seu trabalhador, pago com salário: O direito burguês é apenas a vontade da classe burguesa,

elevada à condição de lei, uma vontade cujo conteúdo está dado

nas condições materiais de vida dessa classe’. Vida Longa a luta de Mamadou Ba, porque a luta antirracista é caminho ineliminável para emancipação humana.

Marcela Uchôa
investigadora do Instituto de Estudos Filosóficos da Universidade de Coimbra.