Fernando Dacosta

Encantatórios

Há lugares assim: habitados por esfinges tornam-se símbolos de mistérios permitindo, aos que sabem ver através de janelas, percepcionar o indizível, o por achar.

Figuras, paisagens, encantatórios evolam-se, então, entre silêncios e delírios. A ficção apetece infinitamente mais do que o real, tudo se fazendo reino dela, cúmplice dela.

Se a felicidade existisse no mundo, a janela era-lhe um lugar de comunhão.

O seu horizonte faz-se uma câmara de murmúrios, sinfonia de andamentos pausados, pousados. Anda-se devagar, fala-se, bebe-se, ama-se, transgride-se, desanima-se, sofre-se, sonha-se devagar nele.

Há uma certa atmosfera de fim. Montes, vales, nuvens, marés, árvores, aves, ruas, sons, odores, corpos tudo se aquieta/inquieta – por serem invisíveis. O sol, a água, o enlanguescimento dão lumes de sul; os ventos, os fumos, os vinhos, dão vertigens de norte.

Não apetece contar o tempo. Não apetece actuar, intervir. Fazê-lo é quebrar a harmonia, a dormência, a quietude que tudo protege, aconchega, fantasia.

 

Fernando Dacosta