Sara Figueiredo Costa

Podia começar por lembrar que não se deportam cidadãos nacionais, mas isso seria apenas dizer aos néscios o que eles já sabem. Na verdade, acredito que ninguém deveria ser expulso de um país, tenha ou não carimbo de cidadania plena, mas também não é esse o ponto. Nesta altura em que a extrema-direita cerra fileiras e uma série demasiado grande de pessoas ingénuas finge não perceber que é preciso não deixar passar essa gente perigosa, atirar com a lei ou as regras básicas de humanidade é dizer pouco. Quando um bando de energúmenos faz crescer o seu número atrás de inúmeros perfis falsos e vem dizer que Mamadou Ba tem de ser deportado, esse bando não desconhece a lei (ainda que seja imune a regras básicas de humanidade), está simplesmente a assumir sem vergonha que sente um profundo incómodo por haver pessoas negras que são cidadãs portuguesas e, ainda mais, pessoas negras que não pedem licença para dizerem aquilo que pensam, também sobre o país em que vivem, o seu passado, o seu presente e as relações entre ambos. Suponho que seja isto o que mais incomoda os energúmenos, uns encartados e bem enfileirados em organizações assumidamente racistas, outros distraídos pelo discurso fácil de encontrar um bode expiatório qualquer. Independentemente das razões, parece-me óbvio que o que há a fazer é deixar clara a solidariedade com Mamadou Ba, assumindo antes de tudo que as ameaças dos bárbaros não podem ter espaço. E assumindo também que um país se faz com a comunidade de pessoas que nele vive, tendo ou não nascido aqui, tendo ou não um documento que as confirma como cidadãs. Já me cruzei com Mamadou Ba numas quantas manifestações, mas não o conheço, não somos amigos, não sei o que pensa para além daquilo que vai dizendo no espaço público – e o que vai dizendo é muito e devia ser matéria para pensar e discutir, coisas tão diferentes de ameaçar e querer excluir. A partir do momento em que o vejo ser alvo de ataques racistas, bullying e ameaças que não são feitas de ânimo leve, só posso estar ao seu lado.

Sara Figueiredo Costa
jornalista