Pedro Miguel Santos

Na aldeia onde cresci, a pouco mais de hora e meia de Lisboa, as caras brancas são a maioria. As mentes também. Foi preciso sair do ninho para perceber como o racismo e a discriminação estavam entranhados na minha construção. Desde garoto, na televisão, ouvia histórias sobre os bairros problemáticos da capital e as imagens mostravam quase sempre pessoas negras ou ciganas. O tom, as palavras, tudo era símbolo de violência e caos. Amadora, Cova da Moura, Sintra, significavam perigo.
Felizmente, não tínhamos disso na nossa pacata terra. As conversas sobre “pretos e ciganos”, eles e nós, pareciam não se aplicar a “pretos e ciganos” de lá. Ao lado das figueiras com os melhores figos do sítio, mesmo atrás de casa, morava a “Mingas”, corajosa mãe de quatro. Brinquei com a Abna e a “Lili”, mais da minha idade. O “Neco” e o “Pato”, um pouco mais velhos, tinham-no feito com as minhas irmãs. Na minha rua, um pouco mais à frente, vivia o “Teco” – talvez o mais alegre e sedutor miúdo da terra – e o “Dimas”, já matulão, o craque da bola que admirávamos. A Jandira e o Sandro eram mais gaiatos, mas também andámos juntos na escola. Moravam n’ “O Bairro”. Toda a gente gostava deles. Porquê? Porque, dizia-se, não eram “pretos como os outros”.
A aldeia, por ser um lugar às portas da vila, é, na prática, o subúrbio da sede do concelho. E aqui fica “O Bairro” ou “Texas”, o Bairro do Carrascal, construído provisoriamente para albergar população vinda das ex-colónias. Casas de madeira, pequenas, coladas umas às outras, em fila. Ainda hoje. Transformou-se em bairro social oficioso, onde moravam pessoas pobres, ciganas, negras e retornadas. Morava lá também o Marinho e a família. A mãe e o pai vendiam na feira. Ele e as irmãs estudavam connosco – elas, até terem deixado de lá ir, demasiado novas. Ele continuou, chegou ao terceiro ciclo. Era o melhor amigo do meu irmão. Toda a gente gostava deles. Porquê? Porque, dizia-se, não eram “ciganos como os outros”.
Portanto, tínhamos “os nossos pretos”, tínhamos “os nossos ciganos” e eles eram diferentes porque cresceram ao nosso lado, andaram connosco na escola e no futebol. “Eram como nós”. Não eram como os das notícias: “criminosos”, “a querer roubar”, “a viver à custa dos subsídios”. Este argumento continua a ser utilizado por alguns amigos meus, nos dias de hoje. Acreditam que a colonização portuguesa foi a menos má, como acreditam que vai sempre haver racismo, que já não há discriminação contra as mulheres ou as pessoas LBGTQI+ – há é minorias que “não se querem integrar”.

Muitos são pais, estão a educar seres vivos, e acreditam nesta ideia do “nós” e do “eles”. Muitos não gostam do Mamadou e desconfio que não se importavam que fosse expulso do país. Seria o mesmo que mandar embora da nossa aldeia a Abna, a “Lili”, o “Neco”, o “Pato”, o “Teco”, o “Dimas”, a Jandira, o Sandro e o Marinho. Não sei se o percebem.
O Mamadou entra aqui. É a forma como questiona e faz pensar o quão profundo é o racismo estrutural em que vivemos; como entende a luta e a defesa da democracia; como argumenta sobre o passado e o tanto que falta fazer no futuro que me permite pensar e pensar-me. Que me permite discutir com amigos sobre as ideias feitas com que nos moldaram e se cristalizaram em nós. 

O Mamadou fala, sem medo e de cabeça erguida. O que diz fica. Ecoa. Como ele, no presente, na história e na memória da luta antirracista deste país. Ficará sempre. Gostava de ter a sua coragem, inteligência, estatura e resiliência. Mas não me falta admiração. Ele não sabe disto, porque nunca lho disse. Casei-me em 2019, com outro homem. Um direito ganho a custo, pelo qual ele também lutou. No meu casamento, as mesas tinham nomes de pessoas inspiradoras, gente que faz o mundo avançar: de Malcom X a Amílcar Cabral, de Marsha P. Johnson a Claudette Colvin. Naquela onde se sentaram alguns amigos da aldeia que negam o racismo, lia-se: “Mamadou Ba. Ativista e militante antirracista. Defensor dos Direitos Humanos de imigrantes e minorias étnicas.”

Pedro Miguel Santos
jornalista