Rui Almeida

DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA NA INAUGURAÇÃO DO MONUMENTO A AMÍLCAR CABRAL, EM LISBOA

Para Mamadou Ba

Aqui estamos, sujeitos aos ventos

Arbitrários da história, junto ao Tejo,

Descerramos tua efígie, teu rosto

Em bronze para que deixe de nos

Fitar. Se te matámos foi por mais

Fortes razões; agora descansamos

No esquecimento, alisamos a tábua

Da contradição e proclamamos

A leveza da fraternidade.

Se te matámos foi sem querer, já lá

Vai, já passou tanto tempo, não vale

A pena falar disso. Aqui estamos

Arrumados no consolo cívico

Do monumento comemorativo,

Do já passou e estamos em paz.

Sujeitos à lírica do consolo

Pela simplificação, aplaudimos

E vamos à nossa vida – e se te

Matámos já nem nos lembramos, não

Vale a pena pensar nisso. Tão

Bonita cerimónia e já estás

Arrumado neste pedaço da

Cidade de onde se fez o império –

Ó mar salgado, nossa glória – se

Te matámos foi só um pormenor

E se te calares seremos felizes.

Aqui estamos, memória limpa e pronta

Para coloridos feitos de Albuquerques,

Gamas e exóticas nativas

Que já esquecemos serem nossas mães.

Rui Almeida
administrativo