Maria do Carmo Piçarra

Carta a Mamadou Ba (e lembrar sempre as cartas compostas pelo José Mário Branco)

No outro dia lia o meu querido amigo Paulo Pena, escrevendo sobre o modo como estão juntos, embora tu leias Fanon quando ele lê Hannah Arendt. Quando escrevi o meu Azuis ultramarinos, sobre propaganda colonial e censura durante o Estado Novo, juntei-os no meu programa ético, e também ao Césaire quando escreveu sobre o holocausto. 

O que acho fundamental é que contigo, Mamadou, o espaço público (no sentido que lhe deu a Arendt) aumenta, ganha dimensão. A tua importância política é enorme, hoje, no nosso país [eu não sou nacionalista mas contigo vale a pena falar num país comum, teu, meu e de todos os que o alargam, fazem dele espaço utópico onde vale a pena estar]. 

Falamos menos do que eu gostaria, ocupados os dois com as nossas lutas [as minhas, de investigadora, muito menos importantes do que as tuas] e projectos. Mas, uma coisa que me alenta é que tu estás e ficas. Conta comigo para a luta. Um abraço amigo, solidário.

Maria do Carmo Piçarra
investigadora do ICNOVA-FCSH / professora Universidade Autónoma de Lisboa