Maria Jorgete Teixeira

Tenho pele morena. O meu cabelo já é cinzento, os olhos com muitas pregas, as pernas já não vão tão depressa aonde eu quero ir. Já tenho alguma idade. Vivi em tempo de escuridão e celebrei a Liberdade.

Outros terão a pele mais clara, mais escura, mais rosada, mais amarela, terão os olhos amendoados, azuis, verdes ou negros, cabelo escorrido, carapinha ou largos caracóis, loiro, castanho, preto de azeviche, ruivo.

Podem ter várias opções de vida, opiniões diferentes da minha, outra ideologia política,  ser crentes em um qualquer deus ou ateus.

A diversidade só pode ser bonita.

Eu nasci em Angola. Sou cidadã portuguesa. Ninguém me mandou para a minha terra. Ninguém pediu a minha deportação.

O Mamadou nasceu no Senegal. É cidadão português.

Levantou a voz para denunciar a homenagem que foi feita a um criminoso de guerra. Uma guerra que marcou os jovens da minha geração. Que fez com que os rapazes, mal saídos da adolescência, fossem combater numa terra que os naturais defendiam do colonialismo e fascismo portugueses. Que fez com alguns tivessem de passar a fronteira, embiocados, aos tropeções, por caminhos tortos, aproveitando as trevas da noite para fugir à guerra.
Um grupo de criaturas raivosas, movidas a ódio e intolerância, saudosas de um tempo que passou, saíram das tocas, numa ousadia que há muito se não via, para apresentar uma petição a pedir a expulsão de Mamadou Ba.

Como se expulsa um cidadão do seu próprio país?
Atónita e indignada ergo a minha voz, afirmando a minha revolta e junto-me a outros e outras, contra a intolerância, o racismo, o fascismo, o ataque aos direitos humanos.

Não passarão

Maria Jorgete Teixeira
professora/escritora