Raquel Correia

O Mamadou é um homem negro, de porte imponente, instruído e destemido. Que ousou usar a sua voz para tornar ainda mais audível a luta antirracista, num país há muito em negação em relação ao seu passado e ao racismo sistémico, cuja existência nem reconhece.  Claro que silenciar Mamadou Ba é um objetivo, desumanizá-lo é a estratégia, atacá-lo é a tática.

Ao contrário do Mamadou, a mim ensinaram-me a calar. Como mulher negra, de aspeto frágil, ensinaram-me a ser discreta, diluída, aquiescente. Não deixei por isso de ser alvo, fiquei foi sem argumentos e armas para lutar. A minha idade adulta foi passada a recuperar a voz. Junto-a agora em defesa de Mamadou perante a ignomínia. Meio titubeante, acredito que continuo a saber identificar o lado certo.

Mamadou, partilhamos africanidade e portugalidade. Não vamos a lado nenhum, a menos que queiramos.

Raquel Correia
psicóloga