Myriam Zaluar

A primeira vez que estive com o Mamadou foi em trabalho. Eu tinha uma reportagem para fazer e ele inúmeros afazeres, mas tirou uma hora (ou talvez duas) do seu tempo para me atender. Com o seu amplo conhecimento teórico e a sua vivência de múltiplas realidades, ajudou-me a compreender um pouco melhor as sociedades poligâmicas, para além dos lugares comuns.

Desde então, encontrei-o em diversas ocasiões (trabalho, lutas comuns, lazer) e o que mais ressalta destes encontros é, por um lado, a amplitude das suas actividades e, por outro, a sua generosidade. Um homem com as suas capacidades podia perfeitamente ficar “na sua”. Mas o Mamadou escolheu a política na sua acepção mais nobre: a de servir a causa pública. E é isso que ele faz, todos os dias. Quando não hesita em expor-se ao ódio dos que não suportam o seu brilho, a sua inteligência. Quando explica, uma vez e outra, e com paciência infinita, as afirmações que levam gente pouca a pedir a sua deportação. Quando recebe ameaças de morte e sai de novo à rua, uma vez e outra, com um sorriso nos lábios e uma coragem inabalável. Quando assume como suas lutas de que não “precisa” individualmente.

Mamadou Ba é um cidadão inteiro, mas nem tinha de o ser. Muitos não o são e nem por isso são encostados à parede. E nem sequer quero saber se é português por acaso ou por escolha própria. Não existe qualquer mérito em ter nascido num local e não noutro ou em ser-se filho de um pai e de uma mãe. São características universais. Mamadou poderia ser só senegalês e continuaria a merecer-nos o mesmo respeito. A todos. Porque ninguém deve ser maltratado, vítima de perseguição, de ameaça, de bullying, ninguém, seja de que nacionalidade, cor, religião ou clube for. Não existe crime de opinião em Portugal, para grande pena dos que gostariam de deportar Mamadou Ba.

Existe sim, crime de apelo ao ódio e de propagação de ideias racistas.

E é por isso que o Mamadou vai ficar connosco e que os saudosos do passado deveriam procurar uma ditadura para nela se instalarem. Em Portugal, o fascismo foi derrotado há quase meio-século.

Outra coisa: a terra do Mamadou, como a minha, como a tua, é o planeta Terra.  É curioso que, em pleno século XXI, ainda seja preciso explicar isto.

Myriam Zaluar
jornalista / tradutora