Raquel Varela

Ouvi a metáfora de Mamadou Ba citando o psicanalista e teórico anti colonialista Franz Fanon de que era preciso “matar o homem branco”, e a reação de ódio que gerou nas redes sociais. Essa metáfora remete para a ideia clássica dos movimentos anti-coloniais de auto emancipação dos movimentos de libertação, ideia que Fanon elaborou a partir da sua experiência na luta argelina. Mais tarde as suas declarações, pronunciadas por vários membros do MFA e historiadores, acusando Marcelino da Mata de crimes de guerra, foram confrontadas com uma petição que pedia a sua deportação. Esta espiral é inaceitável. As discordâncias sobre o passado colonial português, o lugar do racismo da sociedade portuguesa ou outro qualquer tema não podem ter como reacção ameaças à sua vida, carregadas de violência verbal que terminam com um pedido – totalmente ilegal – de deportação por delito de opinião. Essa é a linha vermelha que nunca devemos ultrapassar numa democracia. 

Tive e tenho divergências com Mamadou Ba, públicas, sobre vários destes temas, embora acredite sinceramente que não estamos em paz com o nosso passado colonial e que o racismo é sobretudo visível não em palavras e em estátuas mas nos jovens negros pobres que são mão de obra barata e que nascem e morrem pobres, numa reprodução social da pobreza que é agravada ou estimulada pela cor da pele, que é ciclicamente a cor da construção civil, dos centros comerciais, das escolas degradadas onde têm currículo flexíveis para seguir um percurso, sem volta, de baixas qualificações. A luta de Mamadou Ba tem sido por vezes centrada noutros aspectos, ou tácticas, se quiserem. Gosto de poder debater livremente com ele, se ele o quiser, e com todos, desde que não haja no meio deses debate ameaças, e pedidos de deportação.

Porém, a questão central é esta. Mamadou não ameaça a vida de ninguém,  porém a dele é sistematicamente ameaçada – isso não é aceitável numa democracia. Temos que saber viver com metáforas, com discordâncias, com opiniões contrárias, sem organizarmos uma tropa de choque para calar quem pensa diferente de nós. A tua terra, Mamadou Ba, é a minha terra, quero acreditar. É esse lugar lindo, que um dia William Morries deixou no romance Notícias de Lugar Nenhum – é a terra do género humano

Raquel Varela
historiadora