Nuno Silva

O combate ao racismo é transversal e deve reclamar a participação de todos e de todas, porque o seu propósito é intrinsecamente universal: não há democracia plena com discriminação racial, não existe liberdade efetiva com segregação social. E o embate trava-se em várias frentes, para garantir a qualquer pessoa, independentemente da cor da sua pele, da sua origem, ascendência, cultura, língua, religião ou nacionalidade, o acesso à habitação, à saúde, à educação, à cultura, ao trabalho, à participação social, cívica e democrática – ou seja, à dignidade e ao exercício pleno de direitos fundamentais, que possibilitem a realização do seu próprio projeto pessoal de liberdade.

E em democracia, só não se sujeita ao escrutínio quem decide não existir. Para quem assume uma qualquer intervenção pública, como é o caso do Mamadou e de tantas outras pessoas, a crítica é sempre necessária, porque é com ela que refletimos, que nos questionamos e que nos superamos. Mas essa disputa de ideias não se faz com perseguições, intimidações e ameaças cobardes à vida ou à integridade física. Nem sequer com propostas de expulsão do país, seja relativamente a alguém que tem a nacionalidade portuguesa, como é o caso do Mamadou, ou seja de um estrangeiro. Usar tais instrumentos como estratégia política é negar a democracia, a voz e a liberdade de expressão.

E perante este quadro de violência, a participação pública não deve ser mera opção, mas sim um dever de cidadania. A democracia e os direitos humanos defendem-se com assertividade, porque a passividade perante o racismo é uma forma de cooperação e de legitimação do ódio.

Conheço o Mamadou Bá há vários anos e tenho estado com ele, em múltiplos espaços, no combate ao racismo. E são poucas, efetivamente muito poucas, as pessoas que se têm dedicado à luta anti-racista como o Mamadou o tem feito – com empenho, dedicação, honestidade e frontalidade, mesmo quando é diária e sucessivamente ameaçado e injuriado.

E é por isso que precisamos dele. E é por tudo isso que também sublinho: o Mamadou fica. E nós ficamos ao seu lado.

Nuno Silva
jurista e dirigente do SOS Racismo