Mário Amado Alves



O Império nunca acabou. A descolonização de 1975 foi só um movimento
de corpos. Falta descolonizar as mentes.

O viés colonialista dos atuais manuais escolares encontra-se
demonstrado: “os portugueses descobrem, os outros invadem” (Alexandre
& Caels 2018). Este estado de coisas é claramente uma herança,
distante mas presente, da retórica paternalista com que o salazarismo
(e, antes dele, a monarquia) tentava disfarçar a violência intrínseca
do colonialismo, do Império Ultramarino Português. Tal discurso corria
em paralelo com a glorificação dos respetivos atos guerreiros, por
exemplo a recentemente recordada supermedalhação de Marcelino da Mata.

Notemos de passagem a gritante contradição entre a atitude
paternalista de defesa dos povos subjugados, e a violentação e
aniquilação dos mesmos. Mais uma marca do fascismo. Doublespeak.

As recentes atitudes de homenageação de Marcelino da Mata, por ocasião
da sua morte e funeral, da parte do presidente da república, ministros
do governo, e deputados da assembleia (Marcelino 2021), são uma
infeliz, vergonhosa, e alarmante demonstração de que mentalidade
colonialista e fascista se encontra presente não só nos manuais
escolares, mas nos mais altos órgãos da democracia portuguesa.

As contrarreações aos justificadíssimos protestos de Mamadou Ba entre
muitos outros políticos e cidadãos, são igualmente reveladoras do
espírito militarista, colonialista, imperialista, racista, que ainda
atravessa a sociedade portuguesa em geral. Todos foram à escola,
aprenderam pelos mesmos manuais de história. “Os portugueses
descobrem, os outros invadem.” O Império nunca acabou. A
descolonização de 1975 foi só um movimento de corpos. Falta
descolonizar as mentes.

Continuarei a co-locar na mesma frase, manuais escolares, e a
mentalidade colonialista dos portugueses.

A educação escolar é um importantíssimo factor de formação das
mentalidades. Talvez o principal. O arguto Salazar sabia-o, e
manipulou habilmente o discurso académico na direção que convinha ao
Império. “Os portugueses descobrem, os outros invadem.”

Os políticos são pessoas como as outras: foram à escola, e caíram
vítimas desta subtil operação de branqueamento (literal e figurado) da
ação criminosa e fútil que foi a guerra colonial. Tão ou mais
vergonhosa que as honras de estado prestadas às armas coloniais, é
esta persistência da mentalidade imperialista nos manuais escolares de
história.

A educação escolar é também, porventura, a única via da mudança. Os
investigadores supracitados (Alexandre & Caels 2018) propõem, e
praticam, a “intervenção pedagógica” de preparar os professores para a
perceção, e retificação, em aula, das manipulações da história
contidas nos manuais.

Pode-se pensar que a intervenção deveria ser mais profunda,
nomeadamente atuando na fonte, na criação dos manuais. Como fez
Salazar… Mas para além do correto posicionamento estritamente
descritivista daqueles linguistas, observemos que os alunos do
presente são os autores do futuro. A intervenção proposta percolará.
Resta-nos esperar (literal e figuradamente). Após cinco séculos e meio
de imperialismo estabelecido, que são mais umas décadas?

Alexandre & Caels 2018
The Portuguese discover, others invade. Evaluating historical events
in History textbooks in Portugal / Marta Filipe Alexandre; Fausto
Caels.
7th Conference on Critical Approaches to Discourse Analysis Across
Disciplines, July 4th – 6th, 2018, Aalborg University, Denmark.
http://sites.ipleiria.pt/pge/files/2018/07/Alexandre-e-Caels_2018_The-Portuguese-discover.pdf

Marcelino 2021
Marcelino da Mata. “As memórias foram enterradas vivas e nunca foi
feito o funeral” / Valentina Marcelino.
Diário de Notícias, 16 Fevereiro 2021.
https://www.dn.pt/sociedade/marcelino-da-mata-as-memorias-foram-enterradas-vivas-e-nunca-foi-feito-o-funeral–13356094.html

Mário Amado Alves
investigador, CELGA-ILTEC