António Luís Catarino

Não vou falar da minha repugnância em observar a subida de Marcelino da Mata a um qualquer panteão onde o querem colocar. Tinha eu 14 ou 15 anos e já ouvia falar das façanhas «heróicas» deste indivíduo em pleno conflito na Guiné. Se o TPI, consequência institucional do Estatuto de Roma de 1998, tivesse existido durante a guerra colonial Marcelino da Mata iria lá parar, possivelmente com pena perpétua. Mas o fascismo encobriu-o com o alto patrocínio da PIDE e de Salazar, mesmo contra a opinião de membros do exército colonial enojados com os relatórios das suas acções criminosas. 

Mas a caixa de Pandora abriu-se e agora Mamadou Ba vê-se na contingência de ser insultado como nunca antes o fora (e foi muitas vezes) por uma miríade de fascistas, grunhos, racistas, ignorantes e imbecis que serão à volta de, a esta altura, vinte mil. Sejam quinhentos mil e continuarão tão estúpidos quantos os que assinaram uma petição mal escrita, em português sofrível, mas cujos intuitos são claros: a deportação de um cidadão português de origem senegalesa, juntando assim a anterior tentativa de igual deportação de Joacine Katar Moreira, outra portuguesa de origem guineense.

O delito é não só de opinião e poder-nos-emos interrogar se é de facto isso que move aquela gente. O delito de Mamadou Ba é ser negro. E de citar Frantz Fanon. E de colocar o colonialismo, as suas raízes e o seu ramos subliminares no comportamento das sociedades europeias, no centro da sua acção política. Portugal é tão racista como os outros racistas. Gilberto Freire e a bonomia do seu luso-tropicalismo ficou e permaneceu num país demasiado tempo fascista e corporativista. Por causa desta teoria, este país fez a triste figura de ver cair o último império da Terra sem grandeza ou orgulho como nos querem fazer passar a mensagem. Sem contar com o genocídio inquisitorial secular. Ou como Ramalho Eanes que há dias declarou, melancólico, que sem o império seríamos uma Catalunha qualquer! Pois não somos, não. Mamadou Ba pôs o dedo nas feridas ainda abertas do domínio ocidental nas colónias portuguesas. E sentimo-nos incomodados com o que diz, embora, para mim, isso seja salutar como forma de encontrarmo-nos como povo duas vezes violentado. Pelo fascismo elevado a estado durante 48 anos com o seu rol de arbitrariedades e de violências cobardes de quem dispõe de força bruta e a usa sem grandes problemas de ética cristã e igualmente por um império de papel em que outros, mais fortes, tiravam todo o proveito. 

Não se admirem de ver intelectuais «de esquerda» nesta onda racista contra Mamadou Ba. Eles existem e estão por aí, abrindo, ou melhor, escancarando portas para o ataque violentíssimo ao responsável do SOS Racismo pela direita, quer seja ela «civilizada» ou ultra. E não falo de Fátima Bonifácio, José Manuel Fernandes, Rui Ramos, João Miguel Tavares ou outros, mais soturnos, que vão subindo a escada universitária pela Nova Portugalidade muito mais perigosa que os «chegas» deste país.

Estou a referir-me a um indivíduo em particular: a Guilherme Valente que fez um dos libelos anti-Mamadou mais violentos que alguma vez eu li, com ampla mediatização pelo Expresso e sem possibilidade de este se defender. Isto logo em 22 de Dezembro de 2020! Um editor, dito amante da cultura, dito antifascista e anti-racista, editor da Gradiva, auto-denominado igualmente de «ser humano» e com «amigos de origem africana» (claro!) afirma nesse artigo coisas destas: «O Senhor Mamadou Ba é um perigo público. Um racista à solta que as autoridades fingem ignorar e a justiça e as leis deixam impune. Racista desde logo porque para ele só há racismo ”branco”.» E continua imparável: «O racista (já expliquei porquê) Mamadou Ba volta a chamar racistas às nossas instituições, as nossas leis, aos portugueses. Continuarão em silêncio os ”racistas” PGR, ministra da Justiça, primeiro-ministro, deputados da AR, Presidente da República?». Mas Guilherme Valente não tem medo: «A mim não me dividirá Mamadou Ba: estou ao lado dos meus compatriotas e amigos Portugueses de origem africana.» Certamente contará com a presença do espírito de Marcelino da Mata! E o excelso editor, magoado, pela não deportação de Mamadou e possivelmente de Joacine, remata: «Pode agora o Senhor Mamadou Ba afirmar-se perseguido e mártir, como já começou a fazer, mas essa treta não pegará. Se quer passar por mártir e herói vá para África ou para o Médio Oriente (…)».

Querem mais exemplos de como construir um clima de ódio e perseguição a uma pessoa como Mamadou Ba? Assim se abrem portas para «Preto, vai para a tua terra!» e nos mostramos em toda o esplendor imperial e colonial que povoam muitas cabeças. E pretensiosamente pensantes. È deles que eu tenho receio. 

António Luís Catarino
professor