Patrícia Ferraz de Matos

Mamadou Ba,

Fica porque és português, exemplo da diversidade que existe e sempre existiu em Portugal.

O luso-tropicalismo já era. Cada vez se torna mais difícil aceitar a mensagem de que os portugueses têm uma capacidade especial para se entenderem e misturarem com pessoas de outras latitudes, apropriada e propagada durante o Estado Novo, e que ainda hoje é amiúde repetida, num país que tem neste momento a circular, não uma, mas três Petições Públicas contra ti. Duas dessas petições apelam à tua expulsão do país.

A SOS Racismo, da qual és dirigente, existe no país há 30 anos, tem tido um trabalho meritório na defesa das vítimas de discriminação racial e xenófoba, mas agora parece estar a ganhar mais visibilidade no domínio público. Surpreende que, apesar de existir há mais de 30 anos (faz 31 este ano!), muitas pessoas nunca tenham ouvido falar ou pensem que é uma associação fundada recentemente, que não serve para resolver problemas, mas para os criar chamando a atenção ou proliferando ideias que afinal muitos preferiam ver escondidas ou que não fossem faladas.

Comecei a procurar o que fazia a SOS Racismo em 1999. Nessa altura falava-se timidamente no racismo. Em várias entrevistas que fiz a pessoas que estudaram na Escola Superior Colonial, e tiveram cargos na administração colonial, era frequente negar-se a existência de racismo no país e mesmo no contexto colonial. Mas, nos episódios das suas histórias, emergiam aqui e ali vários exemplos de hierarquia e discriminação, algumas vezes explícita, outras subtil.

Surpreende que nada disto seja novo, embora algumas vezes esquecido ou escondido. Temos um problema enraizado no país e ainda não sabemos lidar com ele. De pouco vale fazer facções, partidarizar (ou tomar partido para fazer valer outras agências) ou virar uns contra outros. O racismo é um problema transversal e intergeracional.

Portugal tem uma história de contacto com pessoas muito diferentes ao longo dos séculos. O primeiro rei português (Afonso Henriques) incitou para que, pelo menos em Lisboa (onde havia mais população no mesmo espaço) cristãos, judeus e muçulmanos procurassem conviver pacificamente. Teve mesmo de ser assim. E é sobretudo deste esforço que o país cresceu e proliferou, com passos para a frente e com passos para trás (como todos os outros países, mas Portugal está entre aqueles que têm uns séculos a mais).

Mamadou Ba, és português e tens outra nacionalidade, protagonizando assim a diversidade a que os portugueses já deviam estar habituados. Tens procurado resolver o problema do racismo, que continuamos a ter, e por isso continuamos a precisar de ti.

Quem, portanto, pede agora a tua expulsão não pode depois vir evocar que as diversidades que a história de Portugal inclui demonstram a sua riqueza e depois demonstrar intolerância ou incapacidade para lidar com as mesmas – sejam elas quais forem.

Patrícia Ferraz de Matos
antropóloga, investigadora