Miguel Franco

Pensei enviar uma contribuição para o blog de solidariedade, mas não sendo figura publica, nem sendo ativista em Portugal, estando fora do país há tantos anos, é-me difícil frasear algo com a relevância e sentido que este momento merece.

Sendo assim, fica um abraço em forma de email, com a saudade e a vontade que este abraço seja em pessoa um dia não muito longínquo.

Lembro-me de te ler, bem antes de te conhecer, e ja te conheço ha quase 20 anos. Lembro-me desse dia como se fosse hoje, numa formação da SOS na Tocha, depois do jantar, numa mesa com a Joana, o Carujo, eu, tu e o António Rodrigues. Antes de te sentares, eu e os outros falávamos da Venezuela e de um golpe que parecia eminente, tu juntaste-te a conversa, falamos da Venezuela, e de como coisas seriam diferentes se Chavez fosse de um país ex-colonia em África. Pessoas foram juntando e saindo, e lembro-me de mim, com 20 anos ou assim mesmerizado com a tua capacidade de expandir o debate, as questões e o significado das palavras, e de como facilmente as reconduzias para as realidades vividas hoje por muita gente, e de como aquilo que eu lia, era o dia a dia de muita gente. Com o tempo conheci muitas outras facetas do teu ativismo, e do teu pensamento em tantas ações e ativismos que participamos, nem sempre concordamos mas também nunca estivemos muito distantes. O respeito e admiração que eu e muitos temos por ti como ativista, como pessoa, como pensador e como agitador de consciências é imenso, e nem as algumas “chatices” em debates online o afetam.

Não consigo imaginar como é gerir um dia a dia para ti, com o constante ataque de tanta gente que não sabe do que fala, que não questiona o que aprendeu, num sistema de educação perverso e que protege a hegemonia dos mais fortes.

#MamadouBaFica, porque fazes falta, porque não só és muitas vezes a voz, mas promoves a voz daqueles que o sistema quer calar e calados, porque promoves a emancipação e e a visibilidade das comunidades reprimidas e oprimidas todos os dias, e porque o modo que usas para inquietar o “senso comum português” é aquilo que Portugal mais precisa, todos os dias, porque a luta não tira dias de folga.

In solidarity,

Miguel Franco
gestor / ativista no UK