Hugo Gouveia

O Mamadou faz-me sonhar é o melhor que eu consigo dizer.

Quando olho para o seu exemplo de luta e sacrifício para que ninguém se sinta excluído, começo a acreditar que é possível uma transformação social mesmo contra forças tão obscuras e destrutivas como ódio, o racismo, o fascismo, e todas as modalidades de opressão e discriminação. O Mamadou tem-nos trazido o fogo das verdades intemporais que profere sobre uma sociedade obstinada no retrocesso das conquistas que se vão perdendo, que insiste em negar e não reconhecer ou assumir a responsabilidade das suas próprias iniquidades, desigualdades e preconceitos.

Porque se “matar o homem branco colonial”_ como nos apostrofou o psiquiatra dos nossos pânicos morais, Frantz Fanon, no desconcertante pleito por descolonizar o nosso imaginário que é muito fácil de distorcer mas muito difícil de compreender_ é sobretudo a metáfora necessária que nos conduz além do seu imperativo de catarse da falsa superioridade civilizacional e se repercute na emancipação da branquitude ou “epidermização da diferença” que teima em tudo homogeneizar procurando vencer e quebrar os corpos e as mentes para obedecerem à construção deletéria de uma identidade única e seu privilégio. Contudo, a metáfora é poderosa porque serve para nos perturbar com toda a legitimidade e não adormecer e acordar no pesadelo colonial, racista e fascista. Para inquietar a todos nós imersos na máscara branca e a denegar a forma como subsiste a atracção pelo abismo, para o qual nos empurra a invenção de uma realidade neutralizadora da diversidade que pode invadir e infiltrar todas as esferas da nossa existência individual e como seres sociais.

É a ideia do homem branco colonial que tem de ser morta porque é uma ideia que mata.

No reverso complementar desta alegoria está a coragem, a capacidade de resistência e o ânimo indómito do Mamadou contra o mundo patológico, os orgulhosos da ignorância, os nacionalistas que nos querem obrigar a ser títeres de um passado mumificado e deletério, os patriotas da submissão a uma cultura de medos e a legião dos sacerdotes da morte que ocultam o seu rosto. Para a minha pessoa entendo ser necessário que nos devemos saber colocar do único lado que consegue despertar a animosidade dos poderosos e dos que esperam e tentam atacar na sua sombra, dos rancorosos que vociferam na proa da segregação e seus sequazes estimulados para fora da sua vergonha pela normalização e banalização do discurso de ódio.

Claro que só poderiam querer deportar o Mamadou. Desse modo, revelam não apenas a falta de imaginação para uma sociedade que nos acolha a todos, mas fundamentalmente o corolário da sua ausência de argumentação perante tudo o que o Mamadou tem conseguido desmascarar. Onde estão os escrúpulos desses falsos apóstolos que se reclamam do Iluminismo, que tanto se queixam da censura do politicamente correcto como acusam o Mamadou de querer “reescrever a História”, quando não falta uma genuína infestação de narrativas que deturpam o nosso passado colonial para servir uma mitologia de legitimação do fascismo e subalternização das populações não brancas ou todas as submetidas à desclassificação e desfiliação social. Querem e precisam com urgência para o seu embuste identitário do silêncio do Mamadou.

O movimento anti-racista felizmente é composto por muitas mulheres e homens neste país ingrato para quem o defende contra a mentira e devastação racista, mas para que a nossa motivação nunca esmoreça tem que haver pessoas como o Mamadou. Oxalá sempre se encontrem mais Mamadous a pressionar os fanáticos a sentir necessidade de deportar para não ficarem aflitos com o desmoronar do castelo de cartas das suas fantasias de sicários da liberdade.

No combate pela justiça social, cujo raio de acção se revela amiúde desmoralizador num terreno tão armadilhado pelos mais perigosos atavismos e “identidades assassinas” como diria Maalouf, o Mamadou nos demonstra que é possível um outro tipo de sociedade, outras mentalidades, outras formas de vida que não as que nos querem conduzir para um colectivo onde as pessoas são despojadas da sua dignidade.

Enquanto houver pessoas como o Mamadou a defender a nossa humanidade partilhada, podemos ter esperança, porque a sua demanda trata de escolher a senda da solidariedade com os desfavorecidos, de inspirar tenacidade nos inconformistas com o racismo e todas as formas de dominação, e finalmente suscitar o incómodo total nos instalados ao leme da divisão da coesão social, para podemos continuar a sonhar com um futuro digno desse nome e não um mero reflexo em espiral do passado.

Para que eu não me sinta estranho nesta terra que não sei se é minha mas de certeza é de quem, como o Mamadou, sabe e terá a capacidade de semear nela as sementes da Liberdade, do pensamento crítico e da verdade.

Obrigado por tudo Mamadou.

Hugo Gouveia
antropólogo