Fernanda Câncio

Não concordo sempre com Mamadou Ba. 

Aliás discordamos frequentemente, tão frequentemente e tanto que nem estamos de boas relações. É relevante isto? É. Porque é verdade, e porque não belisca em nada a minha absoluta solidariedade com este homem. Ou sequer a admiração que sinto pela sua coragem – e é preciso ter muita – para enfrentar os ataques racistas, os insultos, as difamações, as infâmias, as ameaças. 

Não belisca em nada a satisfação que tenho com o facto de a luta antirracista em Portugal ter passado, com ele, a ter um rosto racializado – porque muitos anos houve em que os rostos do antirracismo português eram exclusivamente brancos, o que não era bom nem fazia bem.

As nossas discordâncias não afectam em nada a consciência que tenho de que um rosto negro antirracista, uma voz negra antirracista teria de despertar reacções que um rosto branco antirracista nunca despertaria. 

Porque em primeiro lugar o que desperta a raiva e a vontade de castigo, de morte simbólica que uma ordem de degredo implica não é o que ele diz, é quem ele é: uma voz racializada, uma voz de negro que exige, discute, denuncia, acusa. 

Uma voz que fala de igual para igual, que não se acanha, não pede desculpa, não se conforma com a invisibilidade e a tão bem explicada por João Caupers, no seu escrito de 2010, “tolerância da maioria” – essa tolerância condicional ao silêncio e ao estatuto de inferioridade, essa tolerância que é uma intolerância sonsa, sob disfarce até para si mesma. A intolerância que não sabe de si, a intolerância inconsciente e estrutural, e da qual alguém como Mamadou serve de tão eficaz revelador. 

Essa revelação tem um terrível preço – teria de o ter, levámos demasiado tempo a disfarçar; a explosão vem na relação directa do recalcamento. Não poderíamos continuar a fingir para sempre. Tinha de se revelar essa ideia tão enraizada em tantos de que Portugal é branco, de que os portugueses são brancos, de que quem não é branco ou visto como tal está aqui por empréstimo, por favor, passível de ser a qualquer momento, por desígnio de quem manda, dos “verdadeiros portugueses”, posto daqui para fora.

É deprimente, angustiante, aterrorizador assistir a isto. Mas não consigo sequer começar a perceber o que seja para o seu alvo, para – e sei que esta palavra é difícil de ouvir para Mamadou como sendo-lhe aplicada, é sempre difícil para pessoas assim aceitá-la – a vítima. Não consigo sequer começar a perceber o que seja ser Mamadou Ba. 

A única coisa que posso, a única coisa que sei é não largar. E não te largo, Mamadou.  


Fernanda Câncio
jornalista