Paulo Pena

O Mamadou Ba é do Benfica, eu sou do Porto. Ele é alto, eu sou baixote. Ele cita o Frantz Fanon, eu cito a Hanna Arendt. Ele passa por angolano em Luanda, eu passo por marroquino em Marraquexe. Ele nunca põe likes nos meus textos no Facebook e eu nunca ponho likes nos dele. Pior: ele parece gostar do Facebook e eu sonho com os tempos em que as redes sociais se juntam ao discman no paraíso das invenções efémeras. Nunca falámos ao telefone. Nem ao vivo, que eu me lembre. Nunca trocámos um e-mail. O Mamadou Ba faz parte da minha vida, porque sabe coisas que eu não sei, defende espaços que eu nunca tive ou terei, cria o que a mim não me é possível criar e, com tudo isso, torna a minha vida melhor, mais interessante, rica e sensível. Põe-me no meu lugar, que é ao lado dele, como são os lugares certos. Ele é daqui porque quer, tal como eu, que podia também ser nórdico, tal não é o meu enfado pelo calor. E quem pensar um segundo percebe que somos assim: vamos, ficamos, dizemos, sonhamos. Ou, por outra, achamos que a vida se resume a uma oposição entre ‘nós’ e ‘eles’. Culpamos os outros pelo que nós podemos mudar. Opinamos mais do que pensamos e esquecemos depressa que só a informação nos permite o conhecimento, e só depois disso tudo podemos querer saber alguma coisa. Eu até podia dizer Ba Fica, mas sou do Porto, já vos disse.

Paulo Pena
jornalista