Paula Gil

“A História é escrita pelos vencedores”. 

Desde cedo ouvi esta frase e, em pequena, confesso que não a percebia bem. Já mais crescida, fui percebendo que o currículo oficial de educação conta apenas aquilo que é a narrativa oficial do estado e que muitas professoras e professores nem sequer incentivam o pensamento crítico.

Por isso, ouvimos, desde crianças e, muitas vezes – demasiadas vezes – entranhamos e repetimos coisas como o mito do “bom colonialismo português”, da construção de infraestruturas à educação em massa. Não mencionamos, propositadamente, a exploração, as violações (romantizadas na literatura como “A escrava Isaura”), a tortura, a barbárie da Guerra Colonial, o acesso limitado aos serviços da metrópole, a diferença de tratamento entre a “metrópole” e quem este considerava “os seus” e “os outros”: seres sem nome, sem género, desumanizados.

Vivemos, ensinamos e partilhamos uma história (com um “h” bem pequenino) cheia de tabus e de vergonhas, desavergonhadamente. Alimentamos fantasmas e ideias de “portugueses de bem” que, agora, saem debaixo das pedras onde estavam escondidos e alimentam uma extrema-direita e um preconceito glorificado pela educação que transmitimos de geração em geração, formamos uma sociedade onde falta formação cívica, formação política, formação crítica e que contribui directamente para pôr em causa os fundamentos da igualdade e do estado de direito.

Devíamos sentir vergonha de fazer parte de uma sociedade que vive escondida nos seus próprios preconceitos e que os alimenta.

O Mamadou Ba faz-nos falta: põe o dedo na ferida, incomoda o poder estabelecido, contesta a discriminação vigente e aponta a nossa cegueira.

O Mamadou Ba é um Português essencial ao país e é por isso que querem a sua extradição e é também por isso que não o deixaremos sozinho. A extraditar que sejam os fascistas, esses sim, não fazem cá falta.

Paula Gil
ativista e assessora municipal