Mariana Vieira

São seis da manhã.

Por esta hora, há uns vinte anos, estava com o Mamadou a passear por Lisboa. Mais cedo, talvez. Não era o fim de uma noite de copos nem um pequeno-almoço de pássaro madrugador. Era porque o Mamadou, que eu mal conhecia na altura, tinha tido a gentileza de aceitar fazer a ronda do recrutamento para o trabalho ilegal das obras com duas miúdas, eu e uma amiga que tinha um projecto para a faculdade. Pois, nos éramos duas estudantes universitárias a fazer turismo local. O que vimos foi um choque e um enorme murro no estômago. Sendo eu activista política na altura, nada me tinha preparado para aquela madrugada. Percebi aí que o meu tipo de activismo, por simpático e dedicado que fosse, não tinha nada a ver com o que fazia o Mamadou. Se quiserem, é o que hoje seria ter um activismo de “likes” no Facebook contra ser a pessoa que, tendo de levar com ameaças de morte e insultos diários, não desiste. Nos últimos 20 anos, o Mamadou continuou a dar a cara por muita gente. Por mim, sem dúvida, que sou envergonhada e passei os últimos anos a fazer outras coisas mais confortáveis. Agora, o Mamadou precisa que dê a cara por ele. Na verdade, não precisa nada, que a força dele não depende de mim. Mas eu quero dar a cara por ele, o que é diferente. Sair do conforto desta minha madrugada de Fevereiro e recordar essa outra, de há 20 anos. Aquela em que o Mamadou me mostrou uma Lisboa que não conhecia. Um país que não conhecia. Uma vida paralela habitada por gente invisível e que, envergonhada ou não, não pode escolher dar a cara só porque lhe apetece.

“Mamadou fica” não é uma afirmação. É um pedido que lhe faço e que espero que aceite.

Mariana Vieira
tradutora