Lídia Fernandes

Conheço o Mamadou há mais de 20 anos e aprendi muito com ele. Aprendi desde logo que, sim, ser negro(a) é factor de desigualdade, de discriminação. Aprendi que podes ser Mamadou, podes ser Van Dunen, ou podes ser Joacine… Desde que te resignes em realizar os trabalhos que (erradamente) são os mais desvalorizados da nossa sociedade, desde que não faças outra coisa além de construir as casas onde vivemos ou limpar o chão por onde passamos. Desde que continues a engolir a ideia que nas colónias é que se vivia bem, que ali viviam (ou vivem) seres inferiores que só têm é de agradecer por terem sido civilizados pelo grande empreendimento luso.

Desde que não levantes a cabeça… Porque se o fizeres deixas de ser tolerado, passas a ser odiado.

Parece-me claro que as afirmações de Mamadou sobre Marcelino Mata não só não foram descabidas como foram necessárias. Não pode nem deve ser perseguido por isso, muito menos ser ameaçado de expulsão de qualquer grupo, organização, entidade pública ou orgão de soberania por isso – e muito menos do país. Somos nós, como país, como democracia que perdemos enquanto isso acontece. Por isso nós somos Mamadou Ba. Por isso não podemos ignorar.

Precisamos, como país, como coletivo, reconhecer e encarar a pilhagem que foi a colonização e o negócio de escravos. Precisamos reconhecer que sim, é verdade, a guerra colonial não foi mais do que uma tentativa de perpetuar essa violência. E sim, é verdade, na guerra colonial cometeram-se crimes de guerra e esses não podem ser motivo de orgulho nacional.

Como frisou Vasco Lourenço ao DN, Marcelino Mata “cometeu crimes de guerra. Era claramente um “Rambo” e torná-lo um herói é ofender todos os antigos combatentes que combateram dentro das regras”. Tem a sua memória no tempo em que cumpriu serviço militar na Guiné (julho de 1969 a junho de 1971) um relato que ouviu Marcelino fazer a um major, sobre uma operação: “entrámos na tabanca, deitamos granadas incendiárias para as palhotas, as pessoas fugiam para o centro da tabanca, matámos todos, homens, mulheres, crianças”. “Não aguentei e saí do gabinete”, afirma. “Foram ações deste tipo que lhe proporcionaram as condecorações. Não me venham com a teoria de que a guerra tudo se justifica. É este o exemplo que queremos dar de um militar?”.

Lídia Fernandes
socióloga
ativista da Marcha Mundial de Mulheres – Portugal