José Soeiro

O Mamadou não foi o único a dizer o que ninguém pode apagar a propósito de Marcelino da Mata e dos seus crimes de guerra, mas também desse longo e duradouro crime que é o colonialismo, que escravizou, oprimiu e, não se esqueça, exterminou dezenas de milhões de indígenas e negros. Mas foi o Mamadou, de novo, o alvo preferencial dos disparos do costume. Porque é um português negro, porque não pede autorização para existir, porque diz o que pensa, porque põe dedos em feridas para que tantas vezes não queremos olhar. O ódio que se soltou, com a ridícula e impossível sugestão de “deportação”, mostra o desespero mas também a incapacidade e o incómodo em encarar de forma verdadeira o legado colonial. E mostra como há padrões coloniais que permanecem hoje, de forma mais insidiosa ou exibidos  sordidamente, muito para além do colonialismo político. Desconstruir esses padrões e esses mitos históricos, combatê-los, superá-los: eis uma urgência da nossa democracia. Para isso, precisamos de muitas vozes que, como a tua, os contestem sem medo.

Mamadou fica, pois claro, não apenas porque esta é a tua terra. Mas também porque somos imensos a querer fazer uma outra terra neste mesmo lugar.

José Soeiro
deputado