Sandra Monteiro

O CDS, o neoliberalismo autoritário e os media

O problema que estes dias puseram a nu é o da extrema-direitização de uma direita que se encontrava no campo democrático (mesmo que ela tivesse um entendimento de democracia económica e social de que eu discordo). É mais um capítulo da história da transferência de votos da direita para a extrema-direita nas presidenciais, com crescente peso nos meios de comunicação social.

O problema não é sobretudo uma petição que ainda nem sabemos quantas assinaturas válidas tem, por repugnante que seja esta técnica que a direita autoritária tem (e que a petição também corporiza) de resolver a divergência de opiniões recorrendo a expulsões, deportações, expatriamentos, confinamentos, prisões, encerramentos em campos e tudo o mais que volta e meia ressurge no seu arsenal de guerra à democracia. (Quando a petição for recusada vai ser vê-los clamar pela falta de liberdade de expressão, claro. Entretanto projectaram uma sombra que os agiganta, e isso deixa lastro.)

Sem a actuação do CDS, a petição que pretende “expulsar Mamadou Ba de Portugal” poderia ter sido só um delírio completamente ilegal. Poderia ter-se limitado a lembrar-nos como continua a ser necessário lutar contra o racismo em Portugal, tanto o que se enfiou nas cabeças como nas instituições, exigindo combates pela educação, por condições de vida digna para todos, e por um jornalismo que não se limite a dar acriticamente palco a estas ilegalidades, sendo parte gravíssima do problema (quase todos os media o fizeram, de forma forma indistinta; não foi só o Correio da Manhã, a Sábado ou o Observador, como seria esperado, mas quase todos os outros).

Mas não houve um simples delírio de alguns cidadãos em mais um ataque racista a um activista anti-racista. O que o CDS fez em comunicado do seu vice-presidente (declinado nas versões tiktok) não foi essencialmente diferente da petição. O CDS não devia ser um grupo de racistas alucinados e sem qualquer pejo em substituir o combate de ideias pela exigência proto-autoritária (para dizer o mínimo) da “saída imediata” de Mamadou Ba de um grupo de trabalho contra o racismo. Isto pode servir para tentar que não se discuta a figura de Marcelino da Mata e a representação da República ao mais alto nível no seu funeral. Pode servir o propósito de tentar substituir informação fiável e debate democrático pela imposição de uma visão única e dominante do que é “a nossa história”, do que são “os principais referenciais da nossa cultura”, do que são “os maiores heróis do nosso tempo” (como diz o comunicado). Mas não resiste a um trabalho de educação sobre o que é a memória histórica, como é que ela se constitui e que relações de poder traduz. A memória histórica não é um monólito que basta atirar para cima das perspectivas diferentes, esmagando-as até se impor.

O neoliberalismo sempre quis que não nos pensássemos na história, que fôssemos ignorantes das relações e tensões que a memória do passado, mais ou menos recente, ajuda a compreender. O neoliberalismo sempre quis um eterno presente cuja narrativa controla, sempre sonhou com o “fim da história”, sempre procurou criar uma sociedade de indivíduos atomizados, sem debate sobre as narrativas do tempo e do espaço e sem organização colectiva sobre os futuros que são possíveis e estão em aberto. “Não há alternativa” em economia, lembram-se? Pois também não há, para os neoliberais, mais do que uma narrativa dos acontecimentos, mais do que uma visão da história – a sua.

O carácter anti-democrático do neoliberalismo sempre esteve lá. Pensamento único, austeridade, a lista é infindável. Agora a direita tradicional, ou pelo menos uma parte crescente dela, está com um pé nesse neoliberalismo e outro no ultraliberalismo autoritário, racista, xenófobo, segregacionista, discriminatório e cada vez mais gerador de desigualdades e exclusão, por muito que aparente defender os fragilizados pela crise.

Ao Mamadou Ba

deixo um abraço e a minha total solidariedade face a mais este ataque vil e ilegal de que é alvo. Encontrar-nos-emos nestes combates.

Sandra Monteiro
jornalista