Manuel Afonso

O Mamadou Ba finca: nós e elos

O Mamadou Ba fica. O Mamadou Ba finca. Finca-pé, finca-dente, finca-luta.

E nós ficamos com ele, nós fincamos. Fincamos lado: lado-a-lado.

Nós não aceitamos a perversão pública fascista e os seus vinte-mil-e-tal nomes anexos, sombras de gente sem rosto. Porque o mito que alimenta essa perversão é o de que não se pode ser português e ser negro, que não se pode ser português e nascido em África – que não se pode sê-lo sem acatar o mito colonial, sem ser um Marcelino da Morte do quotidiano calado. É um debate, um combate, sobre nós – desatado por eles, os do ódio fascista. E nós lutamos, fincamos, por nós. Pelo Mamadou Ba, que fica, finca e ficará!

Mas porquê tanto ódio a um só homem? (Que não é um homem só).

Foi dito que a cadeia imperialista quebra sempre pelo seu elo mais frágil e que pela fratura assim aberta irrompem as transformações revolucionárias. É verdade: é-o  para fora e para dentro. E o império colonial, que já não o é para fora, é-o ainda para dentro: nos bairros segregados, na história falseada, na violência estruturada, no trabalho dividido, nas vidas rasuradas, nas mortes policiadas. Chama-se capitalismo racial. E assim se faz Portugal: ainda para dentro colonial.

É esse o elo que eles defendem, quando atacam o Mamadou Ba. É a finca deles e eles não se ficam. Pois o fantasma vivo do colonialismo passado é a força do racismo presente. É o elo mais frágil da cadeia com que a única minoria perigosa – a dos ricos – cava um fosso invisível, mas palpável, entre aqueles que pisa e parasita – entre nós. É a sua finca vertical para nos manter na horizontal. E assim divide, cala, mata e explora: vende migalhas de privilégio para construir um nós que não é nosso – que é deles.

É esse o elo mais fraco da cadeia que Abril quase quebrou, quando os povos africanos se levantaram, desataram os nós fascistas, e nos possibilitaram a democracia em armas. Para quando a justa retribuição? A irreparável reparação? Eis as questões que eles não aceitam. Porque as respostas quebrarão os elos da obsoleta cadeia que os alimenta – de nós.

É a voz que levanta estas secretas questões que eles querem calar. Por isso apontam armas ao Mamadou Ba e soltam o açaime da fera fascista – contra ele e contra outros e outras como ele. Sem cuidar – ou cuidando? – que uma vez desatada, a besta é insaciável. A voragem fascista alimenta-se da fome infinita do dono, mas não obedece à sua rédea.

Mas nós também não nos ficamos: fincamos. Contra o racismo, o fascismo e o capitalismo, fincamos com o Mamadou Ba. Lado-a-lado ficamos: não estamos sós. O Mamadou Ba não está só: somos nós. Na solidariedade construímo-nos. Atamo-nos, nós, contra eles.

O Mamadou Ba fica, finca e ficará!

Manuel Afonso
coletivo Semear o Futuro