Luís Fraga

O confronto da coerência

Desde, pelo menos, 1968 luto pela liberdade de expressão do pensamento, por ter visto cruelmente mutilado um inocente texto publicado no jornal Açoriano Oriental, que a censura prévia entendeu, nalgumas partes, inconveniente.

Desde 1960 sou militar (agora coronel da Força Aérea na reforma) e construi a minha estrutura castrense na certeza de que é fundamental para o supremo serviço da Pátria o desenvolvimento da confiança na hierarquia, até porque ela não age acefalamente, nem desordenadamente. Fui, entre outras disciplinas, professor de Deontologia Militar e Sociologia Militar na Academia da Força Aérea, durante mais de uma dezena de anos.

Desde 1992 até 2017, vinte e cinco anos, continuadamente, fui professor universitário e procurei, através da actividade lectiva e da investigação, desenvolver nos meus alunos o gosto pela discussão e defesa de pontos de vista contraditórios, estimulando-lhes o sentido da liberdade desde que ao serviço do conhecimento.

O falecido Tenente-Coronel comando, Marcelino da Mata foi condecorado várias vezes por acções em combate, com veneras só atribuíveis por actos heróicos em campanha. Não acredito ‒ porque conheço o meio castrense ‒ que tenham resultado da vontade de um só superior seu sem inquérito sobre o mérito. Se acreditasse em tal, teria de desacreditar de toda a minha carreira militar e da própria instituição. Acredito que Marcelino da Mata tenha desenvolvido formas de bazófia distantes da realidade. Admito que, sem conhecimento da hierarquia militar, possa ter-se excedido no desenvolvimento de operações de combate. Aceito que Mamadou Ba se tenha servido deste lado menos claro da personalidade de um homem que, podendo fazer uma outra opção política ‒ porque, para os africanos, a Guerra Colonial impunha, bastas vezes, uma escolha ‒ contrária à que fez, preferiu servir nas fileiras da força ocupante e colonial, para, assim, mais uma vez, condenar a guerra e o que ela encerrava de iníquo. É um direito que lhe assiste quando a Liberdade é o ponto fulcral da Democracia. Mas, aceitar esse direito, não passa por concordar, em absoluto, com quem o exerceu. Assim, sou obrigado, num confronto de coerência, a discordar de quem pede para Mamadou Ba a deportação deste cidadão.

Em suma, como me foi recordado por um Amigo, discordo do que ele diz, mas aqui estou a lutar para que possa dizer o que diz.

Almada, 22 de Fevereiro de 2021

Luís Alves de Fraga
Coronel reformado da Força Aérea
Professor universitário