Fernando Dacosta

Pulsões de ódio

Quando o homem percebeu que viveria melhor se, através do poder (militar, político, económico, cultural, religioso, sexual), dominasse os outros, surgiu a guerra, a escravatura, a exploração, o racismo, o colonialismo, etc. O que se passa no caso actual é consequência disso. Os que se rebelam são perseguidos e, frequentemente, aniquilados. Claro que os portugueses são racistas, à sua maneira, inconscientemente muitos, assumidamente outros, odiosamente alguns – como os que querem a expulsão dos inconvenientes.  Não é, porém, com atitudes assim que se ultrapassam mentalidades e preconceitos, sobretudo em povos como o nosso cuja principal característica é, dizia Agostinho da Silva, a manha e, sublinhava Camões, a inveja.

Temos uma democracia mas não temos democratas, à direita e à esquerda, não temos a cultura da cultura – veja-se a maneira como expulsamos os livros nos tempos do confinamento, o afã com  que queremos derrubar estátuas, destruir monumentos, apagar memórias – manifestações de racismo, outro. Pulsões de ódio soltam-se, estamos numa fase zero, sem presente, sem futuro resguardados; sem lucidez assumida. Não gostamos de nós, nem dos outros, nem do que os outros fizeram no passado. Tendências suicidárias emergem. Resistir-lhes torna-se uma questão de sobrevivência.

Fernando Dacosta
jornalista e escritor