Bruno Maia

As polémicas criadas nas redes sociais e amplificadas pelos órgãos de comunicação social cumprem uma função: saturar o espaço do debate com desinformação, mentiras, lixo, ataques ad hominem, entre outras patifarias. Tudo levado ao absurdo extremo, tornando o mais inverosímil dos cenários em imagens a que nos habituamos. Na voracidade de comentar, de repente tudo é igual a si mesmo e ao seu contrário: o antirracista é racista, a feminista é nazi, o antifascista é fascista. O ridículo que se atinge é tal que a polémica se torna naquilo para o qual foi desenhada: um filtro que obscurece o essencial do debate, que apaga os alicerces fundamentais de qualquer opinião informada. A vertigem opinativa, totalmente autocentrada, ignara de qualquer forma de empatia, esqueceu-se de coisas tão simples como:

  1. O racismo é mau;
  2. Ser antirracista é, por conseguinte, a atitude correta a tomar;
  3. Se alguém manda um cidadão negro de volta para a sua terra, isso é racismo;
  4. Se é racismo, é mau e tem de ser combatido, sendo antirracista;

A cacofonia é uma avalanche, inchada por perfis falsos que se multiplicam aos milhares, que arrasta consigo toda a gente, inclusive os OCS: num ápice o racismo e o antirracismo são extremos e equivalentes. Como se houvesse um meio-termo entre ambos. Como se racismo e antirracismo fossem igualmente maus e houvesse um purgatório idílico para as “pessoas de bem”. Não há! O que há é racismo e pessoas que o tentam combater. Quem procura o meio-termo ou está em busca de um esconderijo para a sua cobardia ou tenta legitimar o seu próprio racismo.

Passei uma semana inteira a ver e ouvir várias pessoas descreverem o crimes de guerra hediondos de Marcelino da Mata. Entre eles, alguns historiadores e académicos que dedicam o seu trabalho ao estudo do colonialismo português. Mais importante, ouvi-os da boca do próprio. Não sou historiador e nem sequer conhecia Marcelino da Mata antes desta polémica. Mas tenho dois olhos na cara para constatar o óbvio: entre tantas e tantos que o denunciaram, só a um fizeram uma petição para expulsar do país. E esse um é negro, nasceu em África e tem um nome “pouco português”! Não podia ser mais racista esta petição. E sim, é mesmo assim tão simples como quero dar a entender!

Bruno Maia
médico